Pouco antes
de morrer em Paris, em junho de 1995, o filósofo romeno Emile
Michel Cioran deu esta entrevista ao escritor alemão Heinz-Norbert
Jocks, publicada no nº 5 da revista Kulturchronik, editada
em Bonn pela InterNationes.
Apresentamos os trechos mais importantes desta conversa em que o
autor de "Silogismos da Amargura", "Breviário
da Decomposição" e "História e Utopia",
entre outros, fala da morte, do tédio, de sua juventude,
do escritor Samuel Beckett e do início de sua ligação
com a filosofia. Cioran foi um dos autores mais corrosivos e polêmicos
do século XX, colocando em xeque as pretensões racionalistas
e tecnicistas da civilização ocidental, assim como
os dogmatismos religiosos. Seus livros são escritos com fúria
e beleza, muitas vezes resvalando pela linguagem poética,
através de aforismos.
Cioran nasceu em Rasinari, Romênia, em 1911, mas desde jovem
radicou-se em Paris. Considerado um filósofo niilista radical,
enfrentou com insistência, em seus textos, os temas do desespero,
da solidão e do vazio que ronda o homem contemporâneo.
Normalmente é colocado ao lado de pensadores como Pascal,
Kierkegaard e Nietzsche.
Tradução
do espanhol: Reynaldo Damazio
Qual o significado de sua vida na Romênia, de sua infância?
A Romênia foi um paraíso terrestre, isolado de tudo
e cercado de escravos. Só ia para casa para comer e dormir,
senão passava o tempo todo fora, ao ar livre, muito simples.
A metade do povoado vivia nas montanhas, nos Cárpados. Eu
tinha amizade com os pastores e gostava muito deles. Era um outro
mundo, além da civilização. Talvez porque viviam
em um país de ninguém, sempre de bom humor, como se
todos os dias fossem dias de festa. O começo da Humanidade
não deve ter sido tão ruim, segundo eles.
Quando isso
acabou?
Em 1920, aos dez anos de idade, quando tive que abandonar meu povoado
e mudar-me para Hermannstadt, para estudar na escola média.
Jamais esqueci essa catástrofe, essa tragédia, meu
desespero naquele dia. Parecia o meu fim. Na época não
havia carros, de modo que um camponês levou meu pai e eu a
cavalo. O primitivo, que vivi ali, parecia-me a única vida
possível. O que conta é a pré-história,
isto é, o tempo anterior à entrada na consciência,
na história, a vida inconsciente. A Humanidade deve seguir
sendo o que é (risos), porque a História é
apenas um equívoco; a consciência, um pecado; e o ser
humano, uma aventura sem igual.
Uma reflexão
religiosa?
Eu não sou ateu, ainda que não creia em Deus e não
reze. Mas há em mim uma dimensão religiosa indefinível,
para além de toda fé. O crente se identifica com Deus,
o que pode compreender, mas eu mesmo me sinto distante de tudo isso.
Eu me movo na linha divisória. A grande idéia do pecado
original do ser humano é compartilhada por mim, mas não
no modo como se pensa oficialmente sobre o assunto. Tanto a História
como também o homem são, queiramos ou não,
produtos de uma catástrofe. A idéia do desvio do ser
humano é imprescindível para se entender o desenvolvimento
da História. Segundo essa idéia, o ser humano é
culpado, não no sentido moral, mas por ter se envolvido nessa
aventura. Quando abandonei minha aldeia, deixei de ser primitivo.
Antes, havia pertencido à Criação, como os
animais, com aqueles que tinham uma relação pessoal
comigo; agora me encontrava fora, à distância.
Você
discorreu sobre os santos, sobre a "Criação fracassada",
e viu-se metido em dificuldades?
Sim. Minha mãe era presidenta da Igreja Ortodoxa em Hermannstadt
e meu pai - bom sacerdote, além de sincero, mas de modo algum
um homem de profunda religiosidade - queria na verdade ser advogado.
Ficou muito triste quando leu o texto Sobre lágrimas e santos,
no final de 1937, pouco antes de minha mudança para Paris.
Quando enviei o manuscrito ao meu editor romeno, este me telefonou
um mês depois para dizer-me que não poderia imprimi-lo.
Ele mesmo não havia lido, mas sim um de seus linotipistas,
e disse que devia seu patrimônio à ajuda de Deus e
que não poderia publicar um livro assim por nada nesse mundo.
De minha parte, em plenos preparativos de viagem à França,
perguntei-me desesperado o que fazer. Na ocasião, encontrei-me
com um romeno que havia colaborado com a revolução
Russa e tinha conhecido Lênin. Perguntou-me o que acontecia,
contei-lhe a história e ele era dono de uma gráfica.
Assim, meu livro foi lançado sem um selo editorial, pouco
depois de ter-me mudado para Paris. Alguns meses depois, recebi
uma carta de minha mãe, na qual falava sobre a desgraça
que meu livro havia provocado. Ainda que não fosse em verdade
uma religiosa, sentia-se sob fortes pressões e rogou-me que
retirasse o livro de circulação. Respondi que era
a única obra religiosa escrita nos Bálcãs,
porque era uma confrontação balcânica com Deus.
Quase todos meus amigos reagiram mal, sobretudo Mircea Eliade, que
escreveu uma crítica extraordinariamente dura, enquanto que
uma garota que eu conhecia me disse que era o livro mais triste
que havia lido. Evidente que se tratava de uma experiência
religiosa equivocada. Eu havia mergulhado de tal modo na vida dos
santos que, na verdade, deveria ter rezado. Mas para isso me faltavam
os dotes necessários, ainda que me sentisse atraído
pelos grandes místicos. Porém, a fé religiosa
não é nunca resultado da reflexão, mas algo
muito complicado. A religiosidade pode ser tola, mas tem raízes
muito profundas (risos).
Em sua obra
transparece um elogio da vida primitiva.
Nesse povoado romeno em que vivia, tínhamos uma horta ao
lado do cemitério e, por essa razão, desde pequeno
fiquei muito amigo de um coveiro de cinqüenta anos. Era um
homem que agia alegremente quando tinha que cavar uma tumba e jogava
futebol com as caveiras. Tenho me perguntado sempre como podia sentir-se
tão feliz dia após dia. Eu mesmo não era como
Hamlet, não era suficientemente trágico. Mais tarde,
nossa estreita amizade sofreu uma mudança e se converteu
num problema. Eu me pergunto por que razão temos que experimentar
tudo isso na vida. Somente para acabar como um cadáver? Essas
impressões ficaram gravadas indelevelmente. Aquele homem
- enfrentando a morte diariamente - se comportava como se nunca
tivesse visto um morto. Gostava muito dele. Estava sempre sorrindo.
A morte é
um tema ao qual você tem sido fiel.
Desde cedo. É uma postura com que se vincula outro tipo de
intensidade. Tenho convivido com a morte, desde muito jovem. Ainda
que agora tenha mais motivos para pensar nela, não associo
com a morte nenhuma idéia compulsiva. Em minha juventude,
a idéia que tinha da morte era uma obsessão que se
apoderava de mim de manhã até a noite. Como núcleo
da realidade, possuía uma presença opressora, muito
distante de todas as influências literárias. Tudo girava
em torno dela, para além da repugnância e do medo,
ainda que de forma patológica. Isto, naturalmente, era também
conseqüência de que não dormi bem durante sete
anos de minha juventude, de que estava extenuado. Naquele tempo,
escrevi No cume do desespero. Essa insônia persistente transformou
minha perspectiva do mundo e minha atitude diante dele. O momento
pior desta situação aconteceu em Hermannstadt, quando
vivia com meus pais. Caminhava sem destino, pela cidade, à
noite. Minha mãe chorava de desespero, e eu mesmo, que acabara
de completar 21 anos, estava a ponto de me suicidar. Até
hoje não sei porque não o fiz. É possível
que tenha aplacado a vontade de suicídio por força
de escrever. Eu não tinha a menor idéia concreta do
que era minha vida.
Você
mudou sua idéia da morte?
Não é possível mudar a opinião que se
tem sobre a morte. Constitui de per si um problema, o problema da
existência. Em comparação com ele, todo o restante
se evidencia como carente de importância. Curiosamente, há
muitas pessoas que não conhecem o sentimento da morte, não
querem ou não podem pensar nela. Os que compreendem o que
significa a morte são minoria. Aos demais falta valor e mesmo
os filósofos evitam o problema.
Mas se filosofa
sobre a morte.
Claro que a morte é um tema na história da filosofia
(risos), mas não como vivência íntima. Em Baudelaire
existe a morte, em Sartre não. Os filósofos têm
se esquivado da morte fazendo dela uma questão, ao invés
de experimentá-la como algo existente. Não a consideram
como algo absoluto, mas entre os poetas é diferente. Eles
adentram profundamente o fenômeno, rastreando-o. Um poeta
sem sentimento de morte não é um grande poeta. Parece
exagerado, mas é assim.
Numa série
de ensaios sobre amigos, você escreveu sobre Samuel Beckett.
O que o agrada na obra dele?
O fato de não necessitar de heróis, de ter criado
um tipo humano incomum e, com ele, ter apresentado outro gênero
de humanidade. Sua obra, assim, não está vinculada
a um tempo determinado. É a obra singular de um sujeito singular.
Não
os aproxima também a fascinação pelo fenômeno
do tédio?
A experiência do tédio, não do vulgar, por falta
de companhia, mas o absoluto, é muito importante. Quando
alguém se sente abandonado pelos amigos, não é
nada. O tédio em si advém sem motivo, sem causas externas.
Com ele vem a sensação de tempo vazio, algo assim
como a vacuidade, coisa que conheço desde sempre. Posso recordar
muito bem da primeira vez, quando tinha cinco anos. Vivia, então,
na Romênia, com toda minha família. Então, tive
de repente a consciência clara do que era o aborrecimento,
o tédio. Foi por volta das três da tarde, quando fui
tomado pela sensação do nada, da absoluta carência
de substância. Foi como se, de súbito, tudo tivesse
desaparecido, tudo mergulhasse na nulidade e fosse o começo
de minha reflexão filosófica. Esse estado intenso
de solidão me afetou de maneira tão profunda que me
perguntei o que significava realmente. Não poder defender-se,
nem poder se livrar dele com a reflexão, assim como o pressentimento
de que voltaria outras vezes, me desconcertou tanto que o aceitei
como ponto de orientação. No auge do tédio
se experimenta o sentido do Nada, e neste sentido não se
trata de uma situação deprimente, já que para
uma pessoa não crente representa a possibilidade de experimentar
o absoluto, algo como o instante derradeiro.
Veja vídeo sobre o escritor Cioran
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