| Orides Fontela |
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Graças ao esforço do Augusto Massi, temos hoje a Poesia Reunida de Orides Fontela. A edição de Trevo, da coleção Claro Enigma, estava esgotada. Era um livro raríssimo de ser encontrado. Espero que mais e mais pessoas tenham acesso à poesia de extremo rigor de Orides.
Ela deve ser vista e estudada como uma poeta cuidadosa e consciente do seu trabalho poético. Os percalços de sua vida e as dificuldades de sua personalidade devem ficar em último plano. Tudo isso já foi muito explorado. O que resplandece agora é a sua poesia, desvinculada das atribulações de sua biografia. A poesia dela tem tão alto valor que considero um rebaixamento lê-la sob a perspectiva de uma poeta vítima da pobreza. Embora descuidada com a própria saúde, era muito atenta à sua poesia. Antes de morrer em Campos, sempre me perguntava pela bela edição francesa do seu livro com prefácio do Michel Maffesoli. Livro que ela nunca chegou a ver. Como não esteve viva para ver como a sua poesia passou a ser estudada nas universidades. Conheço duas teses sobre a obra de Orides: Entretecer e tramar uma teia poética, de Cleri Biotto Bucioli, e a Lírica de símbolos em Orides Fontela, de Letícia Raimundi Ferreira. Ela ficaria muito contente em ver sua obra estudada. Ela tinha orgulho do que fazia. A poesia de Orides Fontela lida com um vocabulário pequeno, quase que simbolista. A partir daí, ela constrói uma poética extremamente pessoal. Os poemas curtos de Orides têm uma concentração de sentidos. É uma poeta construtora, exigente, que usa o mínimo para dizer mais. Uma obra que já nasce em alto nível. Um ponto de referência para quem quer saber a diferença entre um poema realmente conciso e denso e um mero flash poético. Ao contrário do que alguns acreditam, a Orides Fontela teve uma ótima recepção crítica. Foi sempre amada pelos poetas. Teve amigos que a apoiaram como, por exemplo, Davi Arrigucci Jr. Quando a conheci em 96, ela já estava bastante frágil. Na primeira vez que a vi ler na Livraria Duas Cidades, levei um susto. Imaginava-a lendo os poemas de uma maneira calma, quase zen. Ela os lia em tom forte, áspero e afirmativo. Depois, fomos almoçar no Parreirinha, velho restaurante que fechou, junto com sua grande amiga Gerda Schröeder, Ruy Proença e Fábio Weintraub. Tínhamos em comum uma paixão pelos gatos. Numa leitura no Centro Cultural ela leu um poema sobre gatos e dedicou a mim. Descobrimos também que gostávamos de pescar quando éramos crianças. Tenho no meu escritório uma foto dela, magrinha, toda vestida de azul com uma touca azul. Foi tirada no lançamento do meu livro A carne e o tempo, em 97. Os últimos anos de vida de Orides foram bastante sofridos por causa da doença. Acompanhei-a algumas vezes ao médico. De vez em quando, almoçávamos no Centro de São Paulo. Ela se recusava a se tratar, quando o tratamento era urgente e precisava ser feito em hospital público. Falava com ela, por telefone, em Campos de Jordão. Nessa vida em que corremos sempre do emprego para casa, não tive tempo de visitá-la em Campos do Jordão. Falhei como amigo, como falhei em não ter insistido em uma internação mais cedo. Ieda de Abreu e eu tentamos organizar uma lista de remédios, mas desconfio que ela não a seguisse. Vê-la morrer, assim, deu-me um gosto amargo de impotência e de falta de disponibilidade para estar mais perto dela. Tinha comprado umas roupas de lã, toucas, meias para levar até o hospital, como ela havia pedido, quando recebi o telefonema sobre sua morte. O grande bem que nos deixou é a sua poesia. Não pretendo aqui reforçar os traços da personalidade da Orides Fontela e sua dificuldade em fazer e manter amizades. Orides Fontela deve ser vista como aquela poeta capaz de dizer muito com o mínimo de palavras. Foi um anjo torto, às avessas, sarcástico nos seus comentários, impiedoso, inteligente e selvagem. Capaz de trazer tensão ao ambiente e criticar em voz alta a leitura de outros poetas. No seu modestíssimo túmulo em Campos de Jordão, colocamos uma placa que é a primeira estrofe de um poema de Teia: Um anjo/é fogo: /consome-se. Na sua curta trajetória, ela conseguiu construir, como poucos do seu tempo, uma obra extremamente original e que, sem dúvida, permanecerá luminosa. Donizete Galvão é autor de Do silêncio da pedra (96), A carne e o tempo( 97), Ruminações (2000) e Mundo mudo (2003). |
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