Colunistas
Donizete Galvão
O claro raio ordenador de Drummond | O claro raio ordenador de Drummond |
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| Escrito por Donizete Galvão | |
| 04-Mai-2007 | |
Nunca tinha me passado pela cabeça a chance de falar de Drummond. O que me estimulou, sobretudo, foi o pedido de um depoimento pessoal. Portanto, o que pretendo fazer é um relato guiado pela emoção de leitor e também pela alegria de ter nascido no mesmo estado em que Drummond nasceu. Não é para me gabar, mas também sou mineiro. Nessa altura da minha vida já não sei separar muito bem qual é a minha Minas das Minas de Drummond. Tudo se confunde em minhas veias. Afinal, Drummond e Guimarães Rosa representam tão bem o "espírito de Minas" que muitas vezes nossa experiência e memória de infância são tidas como influência.
O meu contato com a poesia de Drummond vem justamente da infância e, exatamente, de um poema chamado "Infância" que ele dedica ao Abgar Renault. Eu estudava no segundo ano primário do Colégio Nossa Sra. do Carmo, de freiras dominicanas. Havia um livro de leitura, do qual não me lembro o nome, com textos selecionados por Lucia Casasanta. Lá estava o poema "Infância" que me causou um choque. "Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava em casa cosendo". O primeiro estranhamento era o significado da palavra cosendo, até então desconhecido. Acho que começou aí o interesse por descobrir novas palavras e tornar outras mais belas. O segundo era o nome de Robinson Crusoé que só mais tarde fui saber quem era. O que realmente me marcou foi entender que a poesia poderia falar de mãe costurando, de pai campeando nas pastagens, de menino sozinho, café preto. Então, a poesia poderia tratar disso tudo e falar de um jeito que a gente entende? Até então o que entendíamos por poesia eram os poemas declamados de forma melodramática pelas normalistas que sempre escolhiam Casemiro de Abreu, Francisco Otaviano ou Castro Alves. Elas retorciam as mãos e faziam caras interrogativas para perguntar "O que há maior que o oceano?" ou dramáticas diziam "Quem passou pela vida em brancas nuvens e em plácido repouso adormeceu". Nós, moleques, tínhamos acessos de riso. Acho que veio daí minha antipatia por poesia declamativa, exclamativa, exagerada. Com Drummond, percebemos desde cedo que a poesia não precisa gritar para ser ouvida. A voz contida fala mais que o derramamento verbal. Em Borda da Mata, não havia bibliotecas públicas e o que encontrávamos nas casas das pessoas eram sempre os mesmos poetas românticos e parnasianos, ou mesmo J.G. de Araújo Jorge que fazia grande sucesso na rádio Guarani de Belo Horizonte. J. G de Araújo Jorge foi lidíssimo em certa época. Bazar de ritmos foi um sucesso. Por isso, vivíamos caçando poemas de Drummond em livros escolares, antologias e jornais. Cada um era um achado. Sabíamos muitos deles de cor. Os professores que se apegavam muito a tal "pedra" do escândalo e penso que desconheciam mesmo a poesia de Drummond. Hoje, quando clicamos um nome na Internet e surge um perfil biográfico, bibliografia, fotos, poemas, críticas, e até mesmo a voz do poeta nem imaginamos como buscar informação era difícil e o quanto quem morava no interior levava desvantagem. Ainda bem que havia o Suplemento Literário de Minas Gerais. O suplemento marcou gerações e gerações de leitores em Minas. Como vinha dentro do "Minas Gerais", chegava a todos os municípios, escolas públicas e cartórios. Era nossa fonte de poesia. Ali muitos de nós aprendemos a gostar de Drummond, Emílio Moura e Henriqueta Lisboa. Lembro-me de um número especial em comemoração aos 70 anos de Drummond, se não estou errado. Os mais diversos poetas fizeram homenagens a Drummond. Foi um número precioso, como também o foi aquele dedicado ao Emílio Moura. O Suplemento Literário tinha essa vantagem de ser muito aberto. Publicava nomes já firmados e também obscuros poetas como nós que mandávamos colaborações para lá. Quando Carlos Eloy Moura e Carlos Alberto Moura se mudaram para Borda da Mata ficamos ainda mais "próximos de Drummond ". Carlos Alberto era seu afilhado, víamos os bilhetes de Drummond, as cartas, aquela atenção para os aniversários. Conhecer os filhos de Emílio Moura foi o mais próximo que estivemos de um poeta que admirávamos. Quando me mudei para São Paulo, com 24 anos, fiquei ao mesmo tempo empolgado com a cidade e também perplexo, desorientado. Datilografei a Prece de Mineiro no Rio, no caso o Rio Tietê, e coloquei na parede perto de minha mesa. "Espírito de Minas, me visita/e sob a confusão desta cidade,/onde voz e buzina se confundem/lança teu claro raio ordenador". Era como se fosse mesmo uma oração de ateu, um pedido para que o vínculo não se rompesse e para que eu não fosse devorado pela cidade. Ouvi muitas gozações, como aquele lugar comum: "Se você gosta tanto de Minas, porque não ficou por lá". Ora, os que mais gostam são justamente aqueles que saem. E o poema continua sendo para mim um "portulano" que me leva "ao profundo mar de Minas". A poesia de Drummond não me influenciou apenas como poeta, mas como homem. A poesia dele foi minha "educação dos sentimentos", como queria Joseph Brodsky que fosse toda poesia. As maiores lições de Drummond estão na sua ética, no seu interrogar incessante sobre o mundo. Não se trata de uma influência simplesmente estética, mas de ordem espiritual e política. De maneira consciente, nunca procurei escrever como Drummond ou como é moda fazer "releituras". Com Drummond, percebi que o humor é o limão que corta a doçura exagerada. O poeta não é um profeta, um vate, um demiurgo. Ao contrário, ele usa da auto-ironia cortante para se mostrar pequeno, impotente, muitas vezes ridículo diante do vasto mundo. O humor também é uma maneira de não nos colocarmos acima das demais pessoas, não levarmos a sério a "posição de poetas". Nesse ponto, percebo que muitos ainda pretendem que o poeta vista um manto do sublime. A sobriedade é outra grande qualidade de Drummond. Sua adjetivação é tão precisa que os adjetivos não saltam do verso, mas servem aos substantivos. A questão não é a proibição de adjetivos, mas ter uma justa medida. Mesmo nos momentos de grande tensão afetiva, o poema de Drummond nunca resvala para o sentimental. É uma sensibilidade seca. Ninguém pode negar a agudíssima inteligência de Drummond, seu estado mental sempre alerta, para detectar o que é relevante e se desfazer de adereços. Quando alguns criticam Drummond por falar do quotidiano, se esquecem que ele parte dele para chegar a uma visão filosófica. Essa capacidade da inteligência de Drummond de radiografar o homem, de nunca perder o foco, talvez seja a grande originalidade dele. Portanto, é seu cerne inimitável. Quanto ao estilo Drummond, portanto, não vejo que ele possa ser imitado facilmente. Drummond quase não tem cacoetes estilísticos. Diferentemente de estilos vincados de um Guimarães Rosa ou de Clarice Lispector, Drummond passeia por diferentes estilos, tem muitas faces. Como poeta, não vejo que a poesia dele seja paralisante ou que asfixie outras gerações. Pelo contrário, ele foi descobrindo camadas como em um aluvião. Deixou muitos veios que podem e devem ser explorados. Uma vez José Paulo Paes disse uma frase da qual não esqueço: a influencia de Drummond é frutífera. Faz multiplicar poetas que, depois, buscam seus próprios caminhos, suas vozes. Penso no José Paulo Paes e em Armando Freitas Filho, também grande admirador de Drummond, que consolidaram sua própria poética. Percebo nos ensaios, entrevistas e artigos umas farpas sobre drummondices e cabralismos. Parte desses poetas, acredito, têm uma visão equivocada. Diante do vigor da poesia de Drummond querem ignorá-lo, saltar por cima dela. Num dossiê que o poeta Heitor Ferraz fez para a revista "Cult", deu meu depoimento sobre essa tentativa de subestimar Drummond. Eu vejo isso como um retrocesso. Todos esses neobarroquismos, neoparnasianismos e neosimbolismos para mim são anacrônicos. Claro que existiram bons poetas nessas escolas, mas tentar escrever como eles no século XXI soa equivocado, kitsch mesmo. Tenho lido muitos originais de livros porque fui júri do Projeto Nascente da USP, do Mapa Cultural da Secretaria do Estado de São Paulo e também recebo muitos deles em casa. Há uma moçada de menos de 30 escrevendo como se fosse Cruz e Souza ou Augusto dos Anjos. Sonetos cheios de palavras em maiúsculas, com textos centralizados, com Ohs, Ais, reticências e pontos de exclamação. A influência dos poetas modernos e contemporâneos tem que contrabalançar esse beletrismo cafona. Há uma poesia muito perfumada, diáfana e delicada como um bibelô. A poesia de Drummond tem carne, osso e tutano. Mais do que nunca é preciso ler Drummond, João Cabral, Murilo Mendes, Manuel Bandeira nas escolas. O professor Ítalo Moriconi deu um depoimento sobre isso e disse que seus alunos chegam ao curso de Letras sem ter lido Libertinagem. Nesse aspecto, acho um desserviço essa mania dos brasileiros pela unanimidade, o rei, o fenômeno. Drummond via com irritação essa disputa para saber quem é o número 1. Não me parece que os poetas estejam numa corrida de cavalos. O Drummond tem seu lugar, sem que isso impeça que os brasileiros valorizem poetas como Dante Milano, Emílio Moura, Joaquim Cardoso ou Mario Faustino, para citar alguns. Não me convence essa história de que a presença de Drummond ensombre esses autores. As editoras estão aí justamente para recuperá-los. Lembro que estamos também no centenário de Emílio Moura. Não vamos culpar o poeta pelo nosso atraso cultural. Por outro lado, há aqueles adeptos de uma atitude mais crítica e que dizem que os poemas de Drummond são banais, contaminados pela prosa e pelo quotidiano. A teoria pode ser boa, mas a prática mostra repetitivas melopéias e trocadilhos. Acho justa essa preocupação com a inovação, mas o resultado tem sido poemas mínimos, sem densidade, próximos dos flashes e dos fragmentos, ou meros exercícios formais. Penso que Drummond nunca se preocupou em ser um poeta canônico, daqueles que pretendem escrever o grande poema do país. Fez alguns poemas mais longos, mas nunca tentou gêneros épicos ou dramáticos. No entanto, da maneira teimosa dele, acabou escrevendo "A Máquina do Mundo". Como poeta, o que aprendi com Drummond é tentar achar um caminho, ainda que torto, pedregoso e sem muito foguetório. Nesse ponto, acho salutar um certo provincianismo rude porque todos já estão tão cosmopolitas que prefeririam escrever em inglês e morar em Nova Iorque. Aqui acho necessário um esclarecimento: não se trata de idealizar a infância, projetar uma visão nostálgica do passado como um paraíso perdido. Penso que é a construção de uma mitologia familiar, pessoal, de recriar um passado que sirva como contraponto ao desumano da agonia moderna. Não é uma atitude escapista, mas um interrogar o passado e o presente para tentar decifrar seus enigmas. Para mim, portanto, o que me move a ler Drummond é essa busca da claridade, ainda que dolorida. Sua poesia "abre um portulano", é um claro raio ordenador. Um poeta para ser lido em todas as idades. Como os argentinos quando ouvem Gardel, descobrimos que Drummond está escrevendo cada vez melhor. Na hora em que usamos preciosismos vocabulares ou imagens demasiado poéticas, a poesia dele nos coloca de novo prumo. Para cada uma de nossas idades, Drummond tem o que dizer. Depois dos 40, lemos "A ingaia ciência" com outra compreensão. Para comprovar a atualidade de Drummond, aproveito uma dica que me deu Fábio Weintraub ao me contar uma história sobre a "Elegia 1938". A Elegia começa com os versos "Trabalhas sem alegria para um mudo caduco,/ onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo." E termina assim: "Coração orgulhoso/ tens pressa de confessar tua derrota/ e adiar para outro século a felicidade coletiva./ Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição/ porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan". Se Drummond foi fundamental para que nós brasileiros compreendêssemos "a agonia moderna" do século XX, continua sendo fundamental para interrogarmos a barbárie do século XXI. Mudamos de século, mas evoluímos muito pouco. |
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