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O ar das cidades

Na poesia o excesso pode parecer prova de erudição,
demonstração de virtuosismo lingüístico, porém, em
livros aparentemente simples podemos encontrar mais
informação estética do que em calhamaços de clichês
retóricos.

A foto de Alexander Rodchenko (1891-1956)
foi uma escolha precisa para a capa do livro O ar
das cidades, de Sérgio Alcides: tons de cinza e
sombras, a respiração urbana oxida no anonimato das
ruas. O poeta apresenta diversas armadilhas para
leitores incautos, sua fala que beira a cotidiana
esconde deslocamentos de sentido, estranhamentos,
epifanias no intervalo das faltas de ar.

Nos versos de "Lembrança“ ("mergulho numa lacuna / escolho a forma
de nado / meu cardume sai comigo / vermelho / de mim /
do aquário derramado “) o poeta busca espaços
possíveis, frestas para escapar do claustro
controlado das cidades, como o personagem Houdini do
poema de Sebastião Uchoa Leite: “Sou Houdini o
mágico / mas jamais afundaria nas águas / acorrentado
numa pedra “ ( "Antipoética de Houdini").

Tentando fugir da padronização dos apartamentos, Sérgio Alcides
cria um pirata fictício em "Maquinaria“: "Levanto o
tapa-olho / para melhor espiar / os sete mares do
quarto “, e conclui no verso seguinte com as belas
imagens: “En guarde ! / Em dia de recordação / também
tem espetáculo“. Como disse Gaston Bachelard, “e o
devaneio se aprofunda de tal modo que, para o sonhador
do lar, um âmbito imemorial se abre para além da mais
antiga memória“ (em A poética do Espaço); no poema
"Oração" o poeta diz: “Minha medida não é pé-direito de
apartamento “, as dimensões se tornam alegorias
emotivas.

Em "Combustão", Sérgio Alcides sabe que
"uma cidade cercada de incêndios“ não é dos lugares
mais apetecíveis para um Orfeu, mas conclui buscando
alguma identidade: “Também agarro algum crepitar de
meu / Sob o céu amarelo / sob a lua roxa “; a lírica
quase escapa em meio à fuligem urbana.

Em um tributo a Antônia Maria, os desvios mínimos de “ Valsa de
uma cidade“ mostram a filiação à uma tradição flâneur,
observatório de amores passageiros e
vitrines. Sérgio Alcides escuta a cacofonia das
cidades “que clamam Pour Elise“ (em "Um Slide"), mesmo
que na versão pasteurizada dos caminhões de gás. Na
cidade tudo é simulação, as mesmas sombras da foto de
Rodchenko pairam como fantasmagorias à espera que um
poeta dono de seu ofício invente outras respirações,
"toda essa geometria para o nado ... “ ( em "Poema Trampolim")
e alargue o compasso de nossos horizontes.

Diniz Gonçalves Júnior é poeta.
 
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