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"Visão Do Térreo", de Ruy Proença Um tema perpassa “Visão do Térreo”, de Ruy Proença, a constatação da finitude; entre a resignação e a perplexidade, todas cicatrizes lembram-nos da sentença do filósofo Heidegger que diz que o homem (dasein) é um ser-para-a-morte e esse sentimento experimentamos diariamente, minuto a minuto. Por outro lado, em outra frase do filósofo encontramos a afirmação de que o homem só atinge a plenitude do ser na angústia, esse sentimento que escorre pelas frestas dos poemas de Ruy Proença, amplia o arco de possibilidades e favorece uma dicção onde vozes se alternam, como foi dito na epígrafe de Franz Kafka. Os poemas de Ruy Proença apresentam versos que poderiam passar despercebidas numa leitura apressada, como no trecho em que se refere ao ciclo da natureza nem sempre pacífico: “Ou a espinha do peixe que ainda vai morrer para fazer morrer” (Mundo Pânico), o peixe que é um alimento cheio de virtudes também pode ser letal se a espinha ficar entalada na garganta. Nesse sentido lembra o poeta Francis Ponge, que buscava aspectos inusitados das coisas do mundo. O elemento surrealista está presente no poema Visão do Térreo, em trechos como: “Uma canoa de ferro esperando talvez braços” (Tanto Peso) e “Pusemos a escrivaninha na praia e nos sentamos bem amarrados à cadeira” (Escrivaninha), imagens fortes, uma canoa predestinada a afundar, bem longe das caracterizações de canoas indígenas típicas do romantismo, e a escrivaninha fincada a areia, o escritor amarrado transportado para a paisagem à mercê de uma onda gigante que o leve de vez. Ruy Proença dialoga com poetas modernos e contemporâneos, no fragmento “Eu que não sei dançar acendo lâmpadas e as penduro” (Mazurca), uma das referências é o poema de Manuel Bandeira, mas Proença desloca o tema carnavalesco usado por Bandeira para uma dança estrangeira, a mazurca, e fala de um transatlântico em apuros, remetendo a filmes como “E la nave va” de Federico Fellini . No poema Maus Lençóis, a imagem “a lua tonta, pálida, anêmica é presa fácil” lembra Carlos Drummond, que escreveu o verso “a lua irônica diurética” (Casamento do céu e do inferno), a lua que mormente é usada de uma forma desgastada ganha adjetivos inusitados, não a dos poetas ingênuos, mas dos que buscam sua superfície e materialidade. No poema Adstringência, o trecho “E como a noite disfarçada de berinjela pousasse sobre a fruteira da mesa” cita diretamente o poema Figura II, de Eucanaã Ferraz, que diz “mesmo a noite é tão só/ uma outra luz mais compacta/ berinjelas que viessem pousar sobre a mesa” , um interessante diálogo entre bons poetas da mesma geração. “Visão do Térreo” de Ruy Proença é um livro que demonstra maturidade, um poeta ciente da linguagem, tratando de assuntos tabus como a efemeridade do homem de uma forma rigorosa, mas sem perder o fio de esperança, mesmo que entre ferrugens e escombros. |
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