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Crônica
Thiago Fernandes | Thiago Fernandes |
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AVENTURAS DE UM GIGOLÔ Atento à rotina de papai, eu decidi que seria diferente. Acordar sete horas da manhã, voltar pra casa quase de noite, tomar banho, jantar, e despencar de cansaço na cama, para só despertar no dia seguinte e voltar a fazer tudo outra vez, realmente não. Eu queria coisa melhor. Raciocinava, em minha desenvolvida mente com sete anos de existência: se sou filho de Deus, como diz o padre, e ele me colocou na Terra, sua propriedade, então o planeta também é meu. E como eu não vou conhecer, explorar o que é meu? Disse isso à minha professora, uma vez. Ela sorriu. Boba. Refeita, explicou, naquele jeitinho meloso com o qual se comunica com débeis mentais: -- Querido, as coisas não funcionam assim. As pessoas precisam de dinheiro para viajar a outros lugares. Aliás, precisam de dinheiro para tudo nesse mundo. Para comer, para comprar roupas. Dinheiro se consegue trabalhando. É o que o seu pai faz. É o que você vai ter que fazer, quando crescer. Fiz que captei o ensinamento, não queria discutir, sua voz enjoava. Minha vida não seria pura rotina, sem tempero! Cada dia viveria uma nova situação. Nunca mais falei com ninguém sobre esse desejo. Cresci, e embora a par das coisas como elas realmente são, a idéia continuou rija. Tinha o plano financeiro inicial, que mais tarde se tornaria mandamento, de não constituir família, a fim de, principalmente, não ter com quem dividir lucros. Passou-se os anos. Papai morreu de colesterol, mamãe, inocente, suicidou-se, intuindo prosseguir ao lado do velho. Mandaram-me à casa de uns tios distantes, carcamanos miseráveis. Trabalhei por dois meses, realizando simplórios serviços à gente da região, conseguindo juntar uma quantia regular. Arrumei uma mala com vestimentas e, em noite de esplendorosa lua cheia, ganhei o mundo. O ambiente do Sul deu um empurrão de ânimo. Minha andança começou pelo lugar ideal. No primeiro dia, passeei por montanhas, a contemplar extensas plantações de trigo que à térreo se fixavam, aveludadas, aquecido por um agradabilíssimo frescor quente. O cair da tarde, contudo, trouxe um vento gélido, que despertou um ronco terrível no estômago. Instalei-me num hotelzinho humilde, cuja diária, incluindo café da manhã e almoço, permitir-me-ia ficar uma semana. Quanto aos jantares... ao menos o daquela primeira noite tentaria garantir. -- Você é filha daquela bela senhora? -- perguntei a uma jovial loirinha, postada num canto, a olhar os hóspedes. -- Ah, não -- respondeu, sorrindo encantadoramente. -- Aquela é a recepcionista. Minha mãe é... bem, a dona do hotel. De acordo com minhas suspeitas. -- Você veio da onde? -- ela quis saber. Um bom sinal. -- De São Paulo. Há tempos que eu queria conhecer o Rio Grande. -- E o que está achando? -- Adorável. Das paisagens ao povo graciosamente acolhedor. Impossível resultados melhores. Debruçado sobre a janela do quarto do hotel, observando as estrelas, esperando o sono, pensei se minha beleza morena, índia, brasileira, faria diferença nas futuras peregrinações como naquela noite o fez. Se atrairia atenções de outras moças bem de vida como Juliana, a referida loura, cheia de outras virtudes, aliás. A danada beijava deliciosamente bem, como pude avaliar, numa escura esquina da cidade, depois de sair da casa dela, onde, apresentado como amigo, empanturrei-me de um suculento estrogonofe de frango e abusei de um fino vinho italiano, sempre a encher a cabeça dos pais coroas com extraordinárias estórias, conquistando-lhes simpatia -- acompanhada de novos convites de jantares. Poderia resenhar o momento em que Juliana me surpreendeu, colocando-me as mãos em seus airosos seios, pondo-se a massagear meu traseiro, todavia, há mais episódios para contar. Enquanto descansávamos da frenética primeira trepada, Juliana contrariou os costumes e me propôs casamento. Fiel seguidor do meu único mandamento, caí fora do Sul. Na rodoviária de Porto Alegre, apanhei um ônibus com destino à Brasília. Permaneci na Capital Federal uma semana bem aproveitada. Nos braços duma patricinha, filha de um político, deputado importante, falou-me ela, fisgada com incrível facilidade, ficou-me tudo evidente: enquanto a minha aparência estivesse bem conservada, eu não morreria de fome. Ao ir meter-me no Pantanal, eu complementei essa evidência: para que a minha abençoada figura fizesse sucesso, teria de haver mulheres no ambiente. E essas criaturas maravilhosas estavam em escassez, na terra dominada por crocodilos. Cheguei a entrar em profunda depressão, planejando sumir dali assim que amanhecesse. Mas os dourados raios de sol do despertar, espalhados por entre os doces galhos das inúmeras árvores trouxeram-me um último vigor de vagar pelas redondezas em busca do sustento. Em torno do meio-dia, porém, encontrava-me exausto e faminto. Localizei uma cabana. Em sua simplória parede, deparei-me com o nome de uma igreja e, em seu fundo, com uma mulher de verdade -- aleluia! Aparentava ser recém-chegada na casa dos vinte, tinha uma pele frágil e meiga. Servia comida a um grupo de ralé. -- Está reservado? -- indaguei, apontando com o queixo o cheiroso feijão sobre a mesa improvisada. Ela não respondeu, olhando-me espantada. -- Tudo bem, só preciso de um pouco disso -- garanti, servindo-me também de arroz e de peixe frito. Comemos tomos numa calmaria divina. Descobri, no entanto, que nas altas horas da madrugada a voluntária pelos necessitados do Pantanal encarnava uma vertiginosa diabinha, movimentando-se energicamente por sobre meu membro. Ufa! Que desjejum maravilhoso! Antes de partir novamente, dirigi-me à uma relojoaria, próxima ao aeroporto, onde troquei por dinheiro vivo pedras de valor, presentes de Juliana, e um relógio de ouro, oferta da patricinha. Saindo da casa de câmbio, meu bolso estava recheado com setecentos dólares verdinhos como eu nunca vira! No que diz respeito à língua portuguesa, saio-me perfeitamente bem. Entretanto, ao sentir o avião pousando na pista de Nova Iorque, veio a insegurança por estar nos Estados Unidos e não saber uma palavra de inglês. A língua universal é o dinheiro, seja ele qual for. Enquanto tive meus dólares, desconhecer o inglês não foi problema. Era mostrar uma nota e todos se esforçavam desumanamente para me entender. Absurdo foi o que eu xinguei gringo, no decorrer de minhas passagens por Detroit, Miame, Washington e San Francisco! De repente percebi-me sem dinheiro, apesar da economia que andava fazendo. A situação tornou-se realmente delicada. Impossibilitado de usar o poder de minha lábia, as mulheres ficavam difícil. Mas minha beleza falou mais alto. Judy devia ter uns trinta e poucos anos, era solteira, o mal que afligia tantas mulheres americanas. Levou-me ao seu aconchegante apartamento, pôs-me à disposição chuveiro, comida e cama, essa última com uma cuidado especial. Ao acordar, encontrei-me rodeado por mulheres de todos os tipos, a me observarem curiosas. Fariam de mim seu objeto sexual? Percebi que não. Eram amigas de Judy, que foram olhar o pobre mendigo que ela trouxera para casa, e com o qual desfizera o seu longo jejum. Perguntavam-me qualquer coisa com language no meio. Respondi português, aproveitando para dizer obscenidades aos montes, o que me divertia. Na manhã sucessiva, uma senhora de aspecto austero apareceu no apartamento, me comunicando: -- Sou uma tradutora. A senhorita quer saber de onde você é. Contei toda a verdade, exceto que ela, Judy, já era a quarta. Duas impertinentes horas depois, a velha finalizou: -- Judy deseja viajar o mundo com você. Não tem nada a perder. Embaracei-me, por essa jamais poderia esperar. Pedi a ela que esperasse um pouco, porque eu não sabia se levaria adiante esse plano. Uma semana após, estava num avião com destino ao Rio de Janeiro, com a grana que me dei ao direito de pegar da americanazinha, em troca do prazer que não menos de dez vezes a proporcionei. Bateu uma saudade imensa do Brasil. :: Thiago Fernandes, tem quinze anos e está cursando o primeiro colegial. Mora em Santo André, São Paulo. Escreve contos e crônicas regularmente para jornais escolares. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email |
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