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MICIC
Talvez o nome de Hermann Micic já não corresponda a nada na memória do grande público. Na década de 50, no entanto, esse Iugoslavo foi capa da maior parte dos grandes jornais do mundo. Pintor brilhante, destacou-se não especificamente por sua obra, mas pela capacidade de reproduzir as mais famosas obras da história da pintura. Seus quadros foram gradativamente entrando no mercado de arte, concorrendo com os originais. As galerias e os museus já estavam repletos dos quadros de Micic quando percebeu-se a duplicidade de alguns deles.
A partir daí, durante algum tempo, a grande questão foi diferenciar a obra original da obra falsa. Identificação por especialistas, procedimentos químicos, físicos, possíveis diferenças entre os materiais utilizados. Nada funcionou. Os recursos do falsário sobrepunham-se aos esforços de dezenas de pessoas. Restou então a última alternativa - o histórico do quadro. Em algum momento a obra falsa deveria ter aparecido.
Surgiram, a partir de então, as primeiras pistas, as primeiras certezas e os primeiros enganos. As falsificações eram queimadas sob protesto. Questionava-se o conceito de arte. Se os quadros eram realmente iguais, por que destruir as cópias? Evidenciou-se que não se tratava mais de julgar a arte com seus próprios critérios mas com critérios externos, em geral o mercado. É provável que originais tenham sido queimados e que haja ainda vários quadros de Micic nas paredes dos museus. Há com certeza, pelo menos um Picasso na casa de um colecionador, lado a lado com sua cópia. (Disse o dono dos quadros em uma entrevista que o Micic ficava sempre à esquerda do original. No entanto, devido a uma infinita falta de atenção, desde que mudou os quadros de uma saleta para o hall de entrada de sua casa, não sabe qual é qual. )
Meses depois da queima dos primeiros quadros, o nome de Micic já aparecia em todas as listas de suspeitos. Surgiam então as primeiras informações sobre ele. As oficias -Pintor amador até os vinte e poucos anos, foi dado como desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial; e as não-oficiais - seu "processo criativo" consistiria em adquirir as características do autor a ser copiado, sentir como ele sentia, ser como ele era. Dessa forma, pintaria não uma cópia, mas um segundo original, pois não tinha como fonte de inspiração um quadro ou uma fotografia, mas todo o impulso criativo do primeiro autor.
Teve-se notícia então de Micic em Florença, e logo o mercado estava inundado de Rafaéis. Paris, Roma, Barcelona. Houve um dia em que Picasso encontrou com Micic numa ópera e ficou impressionado com a semelhança entre eles. Semanas depois havia dezenas de Picassos duplos pelo mundo.
Conta-se, também, do dia em que Dalí pintava em um parque quando notou um outro pintor ali bem por perto. Aproximou-se um pouco e percebeu que o tal pintor se vestia da mesma forma que ele, tinha as mesmas expressões. Um pouco mais perto, notou que o outro pintava o mesmo quadro que ele estava pintando. Se os assessores de Micic não o tivessem retirado do local imediatamente, talvez Dalí é que tivesse feito o segundo original do quadro de Micic.
A perseguição a Micic rodava o mundo. Percebeu-se então que havia certa lógica entre os momentos em que os quadros apareciam no mercado. Quadros do mesmo movimento apareciam, normalmente, em série. Assim, logo que os primeiros Van Goghs apareceram, a investigação resolveu centrar as forças no Taiti, local onde Gauguin (contemporâneo e amigo de Van Gogh) viveu por alguns anos, supondo que esse seria o próximo pintor que Micic falsificaria.
E assim realmente aconteceu. Em poucos dias localizou-se a casa em que o pintor vivia. Cercaram-na, e entraram devagar, pois era forte a pressão da sociedade para que ele fosse preso sem violência. O andar térreo estava vazio. No segundo andar, encontraram numa ante-sala, um Van Gogh acabado havia poucos dias ao lado de algumas cartas. No quarto seguinte, ao lado de um Gauguin apenas iniciado encontraram estendido no chão o corpo de Micic, morto por uma tentativa de suicídio, idêntica à que Gauguin havia sobrevivido em sua passagem pelo local.
Tony Monti é ex-engenheiro químico, estudante de Letras e professor. Nascido em Osasco, São Paulo, tem 24 anos de idade e pretende ser um futuro escritor. E-mail:
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