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Ricardo Goothuzem | Ricardo Goothuzem |
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Oferta e procura A moça caminhou pela calçada, desviando-se dos pedestres, e parou junto ao sinal. Observava o telefone público do outro lado e, após atravessar, dirigiu-se a ele. Balançava os cabelos, ao conversar animadamente. Barreto chegou ao escritório tilintando as chaves, que foram pousar, com ruído, em cima dos papéis do processo que o colega estudava. - Olha aí. Comprei um vermelho. - Sentou-se. Farias ergueu os olhos e riu. - Me empresta? Vou sair com ela hoje à noite. - Ela quem? - Glória. Acabou de me ligar. - Farias recostou-se, sorrindo. Mas Barreto não seria vencido assim. - Quer levar meu carro para sair com minha garota? Mas que safado. - Pena. Mas não tem importância. Fica pra outra vez. - Pegou as chaves e jogou-as de volta. Ao apanhá-las, Barreto estava pensativo. - Por que insiste nisso? É para mim que ela liga. - Pode até ser. Mas é comigo que vai sair. Ambos se olharam com ar contrito. O telefone tocou e Farias, mais próximo, atendeu, superando o gesto rápido do colega. Com uma careta, passou a falar com o cliente, enquanto Barreto batia em retirada para sua sala. Parecia desalentado, mas tinha como consolo as chaves do carro novo no bolso. Foi ao Fórum e almoçou num restaurante da Rua México com três barulhentos colegas. Mais tarde, ocupado no micro, viu Farias entrar e fingiu não notá-lo. - Glória ligou desmarcando. Barreto controlou o riso e continuou a escrever. - Ela deve me ligar então. Não estranhe. Já tinha contado sobre o carro. - Se ela não ligar, posso dar uma volta? - Ela vai ligar. Quer dar uma volta agora? - Obrigado. Vou ver se o laptop já chegou. Alguma audiência, amanhã? - Às onze. O espólio. - Boa sorte. - Esqueça a Glória. - Ela vai sair comigo na sexta - disse Farias, fechando a porta. Farias trabalhou até o final da tarde. Era difícil manter a concentração com o telefone tocando a todo instante. Não havia nada a fazer: a secretária estava doente. Ele observou o panorama do Passeio e, ao longe, o Hotel Glória, ainda refletindo os últimos raios de sol. Era um bom hotel, muito caro. Espreguiçou-se. Barreto estava saindo de sua sala e Farias apressou-se. - Acho que ela está com problemas - disse Barreto, contrafeito. - Você me deve aquela volta no carro - lembrou o colega, vestindo o paletó. - Primeiro um chope. E o micro? - Ainda não. Carvalho quer me empurrar umas bugigangas, uns acessórios. Preços absurdos. - É a tecnologia, meu caro - disse Barreto. Ao retornar da audiência, no dia seguinte, Barreto parecia satisfeito. Farias observava o telefone. - Glória não ligou? - Não sei o que acontece com essa garota. - Deixe para lá. Acabai de chegar, ela vai ligar. Passo o telefone para você, e você fala: oi! - Ela é minha garota. Procure se convencer disso, caro colega. Barreto encostou-se na porta, cruzando os braços. - Você se esquece que eu vi essa garota antes - disse, bem-humorado. - Conversa! Nós a vimos no mesmo dia. E ela sorriu para mim. - Pode continuar acreditando nisso, se lhe convém. Não me importo. Aliás, não me importo sequer que ela ligue para você. Mas este ciúme! Que insegurança. O som do telefone fez Farias se sobressaltar. Depois de um murmúrio ansioso, sua expressão se modificou. - É ela - anunciou. Barreto fechou a porta com estrondo. - Vai me emprestar o carro ou não? - gritou o colega. Depois de um almoço com um cliente e várias horas perdidas no Tribunal de Justiça, Farias conseguiu escapulir para a loja de informática. Caminhou depois pelas ruas cheias de gente apressada, em meio ao calor da tarde, e chegou ao prédio. Não conseguiu vê-la. O carro de Barreto estava estacionado do outro lado da rua. Aproximou-se e a janela se abriu, com uma lufada de ar frio. - Quer uma carona? - disse Barreto, em tom resignado. Ambos moravam na Barra da Tijuca. Uma longa fila de carros estendia-se à sua frente. - Ela não me ligou mas vai ligar. - Esse carro é uma maravilha - comentou Farias. Barreto concordou. - Temos novidades. Lembra do Torres, da construtora? Está com um problema na firma. - Qual é a novidade? Ele sempre tem algum problema. Quando? Daqui a uma semana, mais ou menos. Vou conversar com ele amanhã. - Os sócios, provavelmente. Ele devia se precaver com quem anda. Afinal, o negócio é dele. - Farias olhou para o colega. - Estou pensando em convencer Glória a passar um final de semana fora. O do seminário, em Salvador. - Fique calmo, Dr. Farias. O senhor ainda nem saiu com a moça e já está fazendo planos ambiciosos. - Pensamento positivo. A verdade é que ela me excita. E é bonita, com aqueles olhos azuis. - Os olhos dela são verdes. - É claro que não são verdes. - Olhe para o céu, o céu é azul. Aliás, no momento está violeta. Veja que cor. Gostaria de ter um carro assim. Talvez os olhos dela sejam violeta - disse Barreto, aparentando seriedade. - A verdade é que não a vimos de perto. Mas tenho quase certeza de que são azuis. Por falar em cores, por que um carro vermelho? - A entrega saía mais rápida. Não gosto de esperar. - Pois quer saber? Ano que vem quero um azul. Azul-marinho. A fila seguia lentamente. - Quando a oficina libera seu carro? - indagou Barreto. - Talvez na sexta. - Quer jantar lá em casa? - Vou sair com a Aline e as crianças. - Veja se vai no domingo. Podemos fazer um churrasco e acabar com aquele uísque. Quinta-feira foi um dia atarefado. Barreto manteve um contato inicial com o construtor e se certificou de que seria uma causa longa, difícil e cara. Na rua, examinou um novo modelo de fax e terminou por encomendar um. Chovia quando voltou para o escritório, no final da tarde, e não encontrou Farias. No dia seguinte, almoçaram juntos. - O sujeito da oficina reclamou um pouco, avisou que ia atrasar a entrega, mas no fim consegui. Vai ficar uma beleza. Nunca gostei mesmo daquela cor. Um carro azul-marinho, é o que devia ter escolhido desde o princípio. - Farias serviu-se novamente. Barreto estava olhando fixamente para outra mesa. - Glória está ali - anunciou. - Farias virou-se discretamente. - Quem será aquele cara? - Não conheço. - Olhe bem: os olhos dela são azuis! - Muito longe para distinguir. Farias voltou a se concentrar na comida. Por fim, suspirou. - É, acho que ela já tem dono. Ricardo Goothuzem é jornalista e escritor, mora em Petrópolis, RJ, e atualmente escreve um romance. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email |
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