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Renata Camile Reis | Renata Camile Reis |
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A HORA E A VEZ DE SANTANA MATIAS Nasceu pobre, não paupérrimo, mas de toda forma pobre. Sempre foi um daqueles que a vida escolhe para ser mais ou menos em tudo. Nem alto nem baixo, nem bonito nem feio, nem inteligente nem uma cavalgadura. Padecia do mal dos homens ditos médios, não seria lembrado por ninguém após a morte, ou quase ninguém, pois sempre haverá um parente, que por padecer do mesmo mal que o afligia, lembraria dos falecidos contando suas (deles) pseudo honras e glórias, objetivando justificar suas próprias existências sem honras ou glórias. Pois bem, na verdade nunca se conformou em ser um homem médio. Quando era moleque nunca se chateou muito por ser ruim de bola. Quando adolescente nunca se remoeu e nem amaldiçoou a humanidade por não conquistar a garota dos seus sonhos. Tudo isso porque no fundo, bem lá no fundo, ouvia uma vozinha que vinha lhe visitar à noite que dizia: _ Calma Santana, você vai ser alguém...você vai despontar e será lembrado! Acreditava sobremaneira nessa voz do inconsciente e sempre acreditou também, mesmo sem confessar a ninguém, que a natureza se enganara e acabou por dar-lhe o dom de ser intuitivo, característica tão presente nas mulheres da família. Certa vez sua mãe disse-lhe que sua intuição foi furtada de sua irmã, ainda no berço. O ciúme infantil o fazia fitá-la por horas a fio. Ainda criança, um primo ia casar-se e todos os preparativos da festa excitavam-lhe o coração e os cheiros inovadores vindos da cozinha o deixavam ainda mais agitado. Em meio aos burburinhos das mulheres entre as panelas, entrou correndo feito vento sul, tropeçando nas cadeiras e afirmou sem ser argüido: _ Vai chover, não precisa de tanto doce! - Foi enxotado para o quintal por sua mãe e tias sob protestos de mau agouro. À noite um dilúvio se abateu sobre a cidade. A festa, incluindo as toalhas e o alvo vestido de noiva foram impiedosamente maculados pelo marrom das ruas encharcadas. Por isso e por outras pequenas premonições considerava-se intuitivo e assim nunca teve dúvidas de que ia ser alguém. Os anos iam passando e a cada derrota levantava-se, confiando na certeza latente do sucesso próximo. Mas a adolescência passou e Matias não era prodigioso em absolutamente nada, continuava a ser mediano. Aluno mediano, amigos medianos, conquistas amorosas medianas. Veio a idade adulta e com ela mais responsabilidades, porém seu trabalho não era emocionante, nem propriamente lhe traria reconhecimento. Vendia seguros e quando sobrava tempo pintava letreiros. Não era o melhor vendedor e também não era muito bom em artes visuais. Era, digamos...médio. Andava de ônibus, namorava uma moça que era sua vizinha. Moça normal, sem ambições, que sonhava apenas em ter uma vida honesta de mulher casada, com casa, quintal, filhos e se der um cachorro. Como o aluguel estava pela hora da morte, aceitava de bom grado trocar a casa e o quintal (e conseqüentemente o cachorro) por um apartamento pequeno, "pequeno, mas digno" como costumava dizer. Matias a analisava e comentava com seus botões _ Pobre moça, o que farei com ela quando meu sucesso chegar? Tais pensamentos simplórios não vão se encaixar com a minha nova realidade. E o pior, a mudança está próxima, já sou um homem feito...sinto-a cada vez mais perto. Pois bem, nosso herói sem proezas costumava tomar a mesma condução todos os dias, pensava em futebol e nas mulheres da televisão, como todos os homens de sua idade, mas pensava também que tornar os sonhos palpáveis estava cada dia mais perto. Até que numa dos trajetos de costume o ônibus parou. Engarrafamento? Talvez! Gritos. De súbito Matias sentiu um lampejo de coragem ao olhar através do vidro ao ver um carrão daqueles que povoavam seus sonhos, com uma mulher estonteante dentro. A pobre moça chorava. Era ela! Sua hora chegara O carro jazia no meio da via pública, com a lateral fundida com o ônibus. A visão mais linda se divisou a pobre moça chorava e saltava do que restou do carro aos tropeções, arfando e pedindo alguma coisa com as mãos estendidas. Matias não pensou duas vezes, saltou para a rua e seguiu resoluto para o carro. - Consolarei a Deusa, que ato de nobreza, um acidente desses e ela ainda pede calma ao motorista do ônibus - pensou. Pensava alto e aproximava-se cada vez mais do incidente. O segurança da mulher do diplomata ainda tentou afasta-lo, mas Matias era só decisão. Novos gritos, desta vez do carro que havia fechado o carrão e que ocasionou o acidente. Matias viu sua vida passar na avenida, quando percebeu as armas apontadas e o ricochetear da balas, ainda não entendia muito bem o que se passava. Quem pôde correu, quem não pôde abaixou-se e fez uma mini-prece para todos os santos que lhe ocorreu. Até os ateus, pois na mira de um cano, que venha Jesus, Deus e todos os arcanjos que couberem no pedido. Bem, todos correram ou abaixaram-se, menos Matias...menos por bravura, que por imaginar os agradecimentos por salvar a vida de tão nobre senhora. Mas a vida é dura...e as balas não se apiedaram dos sonhos de Matias e furaram-lhe as quimeras, manchando-as de vermelho. Matias tombou como nunca imaginara, sobre a senhora de sedas e fragrâncias, mantendo sua integridade física. O que se seguiu já era de se esperar, polícia, câmeras, fotos, o circo enfim. Várias versões foram apresentadas. Matias era o bandido paisano que ajudaria no seqüestro frustrado. Era o rapaz corajoso que morreu para salvar uma estranha. Era o amante suburbano da dama e estava com ela no carrão. O círculo se fechou Ele foi reverenciado no bairro, teve gente que nunca trocou uma só palavra com ele, dizendo aos brados que era seu "irmão camarada", e que sentiria muita falta do guerreiro Matias. As produções dos programas dominicais disputaram ferozmente entrevistas "exclusivas" com a família e com a noiva. O sucesso esteve garantido...por alguns dias...até que veio a final do Campeonato Brasileiro. Renata Camile Reis tem 25 anos, é jornalista, atuando como assessora de comunicação. Mora em Campos dos Goytacazes/RJ. |
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