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Conto
Patrícia Köhler | Patrícia Köhler |
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Puta noite de sábado Puta noite de sábado, o céu limpo e estrelado me dá uma sensação indefinível, “essa saudade que eu sinto de tudo que ainda não vi”, como cantou Renato Russo. Abro a segunda Skol, e novamente quebro e empurro o anel pra dentro da lata, num gesto automático. Penso em ligar pro Ricardo, chego mesmo a discar, mas desligo antes do terceiro toque. Queria descobrir quem foi que nos incutiu a idéia de que sábado foi inventado única e exclusivamente pra sair, como pode uma moça tão bonita em casa ? Ainda mais em meio a gatos e livros...enfim, saturday night fever nerdstyle... Fico absorta uns instantes na varanda, olhando a lua, o vai e vem de carros e os jovens ávidos por diversão. Meu irmão saiu há uns minutos dizendo: “Patrícia, hoje tem festa na casa do Michel. Aparece lá, se quiser.” Respondi: “Tá, pode esperar...”, lembrando que a festa é no Ipiranga, moro no Butantã, e não tenho nem um Fiat 147 pra me levar pra cima e pra baixo... Entro e fico andando de um lado pro outro uns dez minutos, pensando se ligo ou não pra algum garoto, amigo, ex-namorado, paquera...ou se venho pro micro escrever este conto. Decido pela segunda opção, para deleite de vocês! Minha mãe, minha maior companheira nos meus longos períodos de solteirice, me pergunta toda hora: você leu esta crônica da Martha (Medeiros, nossa maga) ? Lembra daquela cena em Morango e Chocolate ? Sabia que Voltaire chegou a levar uma surra de porrete ? Respondo a tudo com olhares e movimentos ascendentes e descendentes da minha confusa cabecinha, perdida entre poemas, lembranças da excelente noite anterior com o Riqui e a mágoa que insiste em não ir embora por causa do fora que levei há dois meses. Ainda mais ouvindo o cd da Sade, que tanto ouvimos transando em seu quarto. Leio o mesmo poema pela terceira vez, tentando entender toda a complexidade do Haroldo (de Campos). Mas me perco entre “there’s must be an angel by my side...” e frases como “ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora...” Subitamente me lembro do meu mais recente amigo virtual, que é jornalista e com quem aos poucos estabeleci uma ótima conexão. Penso em lhe escrever, mas contenho meus impulsos ao lembrar que são onze e meia da noite de um sábado. O que ele pode pensar ? No mínimo que sou uma nerd ou uma “meia” gordinha, como já escreveu o Mário Prata. Detenho meus dedos, prontos para clicar no discador do IG, e volto à minha leitura. Resolvo trocar o cd. Ponho o Zeca Baleiro, que sempre me faz rir e chorar com o cérebro. Abandonei o livro de poemas. Peguei o Bono, meu amado gato vira-lata, e me refestelei no sofá rasgado da sala. Mas não sem antes salvar este conto no meu disquete. Amanhã o revisarei, cuidando da ressaca do meu irmão e relendo sóbria meus poemas. E domingo a gente pode escrever e ligar pra todo mundo sem paranóias, pois é o dia oficial de ficar em casa. Puta noite de sábado ! :: Patrícia Köhler tem 24 anos e é estudante de Letras. |
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