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Nilza Amaral | Nilza Amaral |
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A PRISIONEIRA A bruxa que a mantinha prisioneira possuía longos cabelos brancos, seu corpo era gordo e flácido, a pele do rosto enrugada, a boca em rito. Todas as manhãs quando ela acordava e tentava sair pela porta do quarto sempre trancada, a primeira figura que via era ela - a bruxa. Esquisito como tentava esconder-se, esgueirando-se pelos cantos do guarda-roupa, deixando à mostra apenas o rastro dos terríveis cabelos secos. Todos os dias na hora certa a empregada entrava, chamava-a com voz doce, venha, vamos fazer o seu coque, vamos prender esses belos cabelos, que ela sabia não serem seus. Porém a criada ignorante, nativa do lugar, jamais poderia entender seus sentimentos, nunca acreditaria que aquela figura no espelho não era ela, mas a sua carcereira, que ali a retivera, ela, tão linda, tão jovem, com seus cabelos pretos, sedosos e curtos, aquela criada jamais entenderia que aquela carne gorda, flácida ali refletida jamais poderia ser o seu reflexo, a sua cintura fina, o seu corpo jovem. A bruxa era má, torturava-a fechando-a naquele mundo paralelo, sem fim, impedindo-a de reencontrar o seu amado, as suas pequenas filhas que deveriam estar precisando tanto dela. A voz da empregada era irritante, venha agora, querida, vamos tomar o seu desjejum, veja como ficaram lindo os seus cabelos, ela olhava no espelho e não se via, mas a bruxa esperta lá estava com o seu coque arrumado e as vestes largas, venha, tiramos a camisola depois do café e então a senhora poderá passear de carro com o motorista. Já tentara atacar a sua carcereira. Sim, quebrara a socos a prisão brilhante. Conseguira a liberdade por tempos, quando passava os dias recuperando-se. A bruxa porém não a perdia de vista. E mesmo nas casas de repouso para onde ia curar-se dos ferimentos, nas menores superfícies espelhadas, lá estava ela _ a bruxa, encobrindo a sua verdadeira imagem. A prisão era logo substituída, novas superfícies apareciam, mais resistentes, inquebráveis. Ela evitava encarar aquele reflexo ameaçador. Passava dias olhando as suas fotos de jovem, de noiva, aqueles cabelos pretos lindos, a pele sedosa, os dentes brancos, tentando reencontrar-se. Por vezes, em momentos de fugaz lucidez achava que envelhecera, que as filhas cresceram, que o amado se fora, logo entretanto, afastava tais pensamentos negativos e sabia que seria feliz novamente quando a bruxa a libertasse, quando deixasse de refletir-se no espelho onde a enclausurara. Um dia teve a sensação de se ver na imensidão do quarto refletido na superfície branca, lá no fundo, entre as camas, próxima à porta, escapando pelo canto, os rastros de seu vestido charleston, chispas de seus cabelo pretos, os altos saltos saltitando, escapando da bruxa gorda, que se esvaía sem vida pelo chão do quarto. Teve a impressão... TRECHO DE O DIA DAS LOBAS Quando é sexta-feira e a lua lá em cima no negrume do céu é cheia ela se transforma em loba. As suas unhas quadradinhas e limpas se transmutam em garras vermelhas. Sua capa de chapeuzinho vermelho agora é um casaco de pele quente e cor de mato queimado. A mágica começa ao cair da tarde, na hora das angústias. Ela não é a única. Dos morros descem outras lobas, prontas para a aventura da noite. Os metrôs estão cheios. É a hora da saída dos trabalhadores. Dos morros descem os mascateiros, das ruas saem os funcionários, dos escritórios, os escriturários. Atualmente o que tem mais mesmo é trabalhador de campo. Eles limpam os buracos cheios de lixo e molham a terra calcinada. Ela entra no metrô. Olhando-se para ela jamais se diria que é uma loba. Seus olhos oblíquos prescrutam. O sorriso rasgado na cara felina espera a hora certa. Suas pernas peludas escondidas dentro das botas de cano alto, sob a saia comprida, abrem-se e fecham-se atraindo os olhares curiosos dos homens. A cidade é uma chaga de fogo, perdida entre as montanhas peladas. O calor insuportável a irrita, seus pêlos tornam-se úmidos, ela se inquieta no undergraunde. Seus pequenos e curtos uivos não parecem chamar a atenção de ninguém. Todos olham mecanicamente para o abre-e-fecha de suas pernas. De repente ela sente o perigo no ar. Entra no metrô, o deus da caça, grande, forte, ameaçador. >> Trecho do livro O dia das Lobas. Ed.Escrita. :: Nilza Amaral Antunes de Souza é escritora, professora de literatura e coordenadora de Oficinas literárias. Integrante da Rebra - http://rebra.org - Rede de Escritoras Brasileiras ligada à Relat (rede de escritoras latinas) e a Wwworld( rede mundial de escritoras). E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email Livros publicados: - A balada de Estóica. Ilustrações de Marcelo Lima. Ed. Gráfica Lanzara, edição de luxo; - Modus diabolicus. Ed.Razão Cultural; - Dez contos sobre o trabalho. Ed.Senac; - O Florista. Ed.Massao Ohno. - O escritor na biblioteca / Diálogos e debates - Secretaria Municipal de Cultura/organização dos textos. |
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| Quarto e último evento da série Errática – Poema ao Vivo, sempre com dois poetas e/ou artistas convidados que fazem leituras de textos seus e de outros autores. Deste encontro participam o poeta, ensaísta, escritor e compositor de música popular, Antonio Cicero e a também poeta e artista visual, Lenora de Barros. | |
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| Escritor português ganhador do Nobel de Literatura vem lançar sua obra no Brasil no dia 27 de novembro. | |
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