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Karla Andrade | Karla Andrade |
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A espera da ausência Como ela queria um beijo naquela noite, naquela madrugada, parecia que nunca tinha beijado, nunca tinha dormido sozinha sem um cheiro alheio por perto e não tinha mesmo, porque não fazia falta, não tinha feito até então. A auto-suficiência é nula , enganosa, digna de desprezo, leva as pessoas á falsas conclusões e no amor ela é mortal, tem formas diversas de acordo com quem a guarda e normalmente diz-se que é auto estima, sinal de segurança, mas no caso daquela mulher na madrugada era sinal da presença do desejo, do desejo da espera. Sabe-se lá quantas pessoas podem “desejar um espera”? Poucas certamente. Parecia que no mundo inteiro só ela estava esperando por algo que não viria, era uma mulher, sim era, consciente, viva, sensata, intensa que se arrependia disso tudo nesse exato instante, porque o fácil da vida era ser morna, não escolher entre nada, apenas esperar para ser escolhida e testar eternamente o seu poder de adaptação e persuasão, era quase um esporte. Sexo. Brincar de sexo, isso era pobre demais para alguém como ela, era brincadeira por que não carregava nem a metade da intimidade encerrada num beijo. Paixão. A paixão está em cada esquina, chamando, pedindo abrigo, como um parasita que provoca um êxtase de meses e uma ressaca do mesmo tamanho, bastando que alguém deixe que ele se instale. Era preciso ser uma mulher especia , incomum, intensa demais para dizer com todas as letras que era um gesto e não o ritual que a seduzia. Olhava o travesseiro, branco impecável , perfeito para um sono tranqüilo e sem surpresas. Mas, era um contra-senso sem tamanho, as surpresas não podiam ser surpresas deviam ser esperadas e se todos esperassem as surpresas elas deixariam de existir e nasceria algo com outro nome que significasse surpresa antes da revolução. Ela já viveu essa revolução há muito tempo, aliás, teve um momento que permitiu a divisão em duas mulheres do que antes só era uma menina sem cor. Foi numa madrugada igual a essa agora vivida, quente, sem opcionais como lua e estrelas, ela estava sonolenta e ouviu de alguém: - Você é uma mulher muito bonita, cuidado com isso, isso pode ferir. Atitudes ferem, você pode não conseguir ferir ninguém com suas unhas roídas, mas quem precisa de unhas para ferir não merece crédito. Esse é o inferno de quem se conhece, a impossibilidade de enganar a si mesmo, provocar o engano alheio é fácil, as pessoas dizem com os olhos e entrelinhas o que querem ouvir e quando ouvem se dão, encontram seus donos. Então era assim? Ela podia ferir. Não sabia se ficava feliz ou não de poder ferir, era poder demais e ficava tonta. Estava momentaneamente indecisa, com medo, afinal era a primeira vez que ouvia a palavra mulher e que era com ela, ali tinha que decidir se seria a mulher que fere ou a menina sem cor, doce porém frágil. Quis ser mulher e o foi e o é. É uma construção lenta, impossível acordar mulher, no entanto muito fácil começar a ser, alguém ainda vai provar que até o cheiro muda quando se escolhe mudar. É fascinante achar perfeitamente justificável dizer para quem tiver vontade de ouvir: - Eu e o ponto G ainda não fomos apresentados, não sou fã do Caetano e muito menos do Woody Allen. Algum problema nisso? - (embaraço monumental) Não... de jeito nenhum. Do Woody Allen o último filme que eu vi foi “A Rosa púrpura do Cairo”. Você já viu esse? Podia ser que gostasse. Era impressionante quanta coisa tinha que ser ouvida para ter um beijo, quando, na verdade, o beijo deveria ser o primeiro passo, às vezes conversamos tanto e quando vamos beijar é como ter na boca um patinho amarelo de borracha sem apito, sim, porque se além de ter gosto de borracha apitasse era a ante-sala do corredor da morte. Só uma mulher consegue dissecar o desejo que sente, saber por que e por quem ele está lá. Faz isso sem receio da resposta não agradar a todos, quem sabe até a intenção seja agradar a menor quantidade de pessoas possível, só uma interessa. Generosidade e altruísmo ficam na manhã ou no máximo na tarde o escuro da noite e madrugada é dos sonhos e sonhos são únicos e individuais. O que resta? Um conclusão. - Talvez seja por isso que fui dormir assustada ontem e continue assustada hoje. A realidade me mata. :: Karla Andrade tem 24 ano, é formada em Ciências Sociais e pretende estudar jornalismo ( Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email ). |
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