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Conto
Filipe Freitas | Filipe Freitas |
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MAÇÃS E VINHO REVIREI OS bolsos da calça e encontrei dois clipes, o papel de um chocolate, duas chaves – que eu ainda não sei o que abririam – e alguns centavos. Estava liso. Outras hipóteses possíveis simplesmente não me ocorriam a não ser fugir dali. Apoiei-me no parapeito da janela e, descalço (pois se caminhasse por aí com aqueles coturnos feitos de puríssimo chumbo, seria flagrado à distância), saltei. A queda me foi infeliz: aterrissei num minúsculo jardim, cortante e traiçoeiro; me feri, pois, como já disse, tinha os pés nus. Mas após uma avaliação aclarada por um tímido poste de luz, certifiquei-me tratarem-se de rasos arranhões; nada que impossibilitasse minha escapada. Driblar a guarita, como já havia previsto, foi fácil; o sonolento Fabrício a guardava. Esgueirei-me por suspeitas e inertes ruelas para ganhar a Avenida Principal. Dali tinha que arranjar-me. Evidentemente não podia cometer o absurdo de correr para casa: seria o primeiríssimo lugar onde me buscariam, tão logo dessem por minha ausência. Servi-me de um gasto par de sapatos, oferecidos por um mendigo: - Pegue rapaz, você me parece ser boa gente – disse, ao ver-me passar descalço. - Acabei de ganhar uns novinhos, veja – disse-me, exibindo seus novos pisantes. – O pessoal das doações foi muito generoso esse ano. Calçado, plantei-me num ponto de parada e decidi que seria guiado pela sorte: entraria no primeiro ônibus que surgisse, se é que algum daria as caras agora, numa hora dessas. Não esperei muito: era um intermunicipal, azul e vermelho, de uma frota não muito nova. - Deu sorte, meu jovem – disse-me o motorista, ao ver-me subir maltrapilho as escadas prateadas. - Este é o último da linha; outro, agora, só amanhã de manhã - e embalou-se numa canção. Sorri-lhe amarelo e paguei ao cobrador – que não partilhava do mesmo bom humor de seu colega – com as moedas que me restaram. Instalei-me num banco dos fundos. De passageiros, além de mim, é claro, havia somente um outro rapaz, que dormia, cheirando a vômito. Seu comprido cabelo liso escorria-lhe pela cara, até morrer emaranhado em sua barba populosa. Passava também a repulsiva impressão de uma lesma; a posição em que se espalhara no assento dava uma sensação de ser ele gelatinoso, quase um líquido. Dividi o tempo da viagem entre conjecturas sobre a procedência do cabeludo e reflexões de toda aquela descabida situação em que chegara. De quem eu fugia? Daqueles que que me acusavam de algo que não fiz? Desde a última guerrilha (a mais atroz de todas que vimos sofrendo), que casos como o meu vêm tornando-se cada vez mais freqüentes. A incapacidade flagrante de nosso Estado em infiltrar-se entre os verdadeiros causadores da balbúrdia e da desordem, que levam nossa Pátria à derrocada, obriga-o a fabricar culpados. O Estado fisga passivos cidadãos nas ruas e crucifica-os como transgressores das leis. O sistema carcerário criado para esses casos, felizmente, não é o tradicional: me enclausuraram num quarto, não numa cela; não havia sequer grades nas janelas, mas as portas eram severamente fechadas à chave. Não podiam prender-me à moda antiga, pois era apenas um SCP – Suspeito de Crimes Políticos. Porém, o fato de não serem as janelas gradeadas, não tornava minha fuga lícita. Eu estava foragido. Havia fiscais espalhados feito formigas por toda a cidade, à paisana; delatores do Estado. Assustou-me o fixo olhar com que o mal humorado cobrador me martelava. Salvando-me, o ônibus estacionou; chegara ao terminal rodoviário, era o fim da linha. Com um grosseiro safanão, o cobrador despertou o cabeludo, que ergueu-se de todo, com os olhos esbugalhados, como se estivesse em transe. Desci pelos fundos; o sapato doado já causava-me certos incômodos – o mal cheiro era o menor deles. A hora e meia de viagem a que me submeti, somada à adrenalina da fuga e à sonolência que já me atirava pedras na janela, causou-me complicações de raciocínio. Tão logo desembarquei, notei que estava regionalmente perdido. Num relógio de parede do terminal, coberto de poeira, os ponteiros incertos mostraram-me o tempo: três e vinte da madrugada. Sem norte, resolvi seguir o torpe cabeludo, que se locomovia aos esbarrões e tropeções, mas parecia saber aonde ia. Caminhou serenamente por uma larga avenida que, apesar de deserta agora, certamente era uma das principais artérias do trânsito daquele lugar. A certa altura, o meu guia parecia testar seu nível de embriaguez: equilibrava-se no meio fio, como um artista de circo que passeia por uma corda a vinte metros do solo; deixou-se cair para o asfalto por duas vezes. Enveredou por três vielas que cheiravam a peixe. Na quarta, perdi-o de vista, em meio ao breu. Uma mão gelada tapou-me a boca e outra sufocou-me o pescoço, travando-me contra a parede. Senti os cabelos roçarem-me a cara e um hálito de vodca, que agora era-me cuspido: - O que quer? - Perguntou-me o cabeludo, estranhamente lúcido. - Por que me segue? Por que eu o seguia? Nem eu o sabia. Destapou-me a boca, à espera da resposta, mas a descomunal força com que me maltratava o pescoço proibiu-me de dizer-lhe qualquer coisa que fosse. Balbuciei monossílabos para mostrar-lhe a impossibilidade; aliviou-me. Sua aparência fez-me crer que ele não era um delator do Estado; resolvi contar-lhe a verdade. Retomei o fôlego e comecei: - Foragi-me de uma base do Governo há pouco; puniram-me por algo que não fiz. Procuro abrigo. Seus olhos de lobo louco baixaram-se; ele refletia. Sentiu sinceridade em minhas palavras. Penosamente, respirou fundo e voltou-se para mim: - Se descobrir que está mentindo, te mato sem maiores cerimônias. Assenti temeroso. - Por aqui – disse, puxando-me pelo braço. Conduziu-me por mais outras tantas ruas, que me confundiram ainda mais; se me obrigassem a trilhar o caminho de volta ao terminal rodoviário não sei se seria capaz. Ancoramos diante de uma casa de médio porte. - Espere-me aqui fora; não demoro – disse-me o cabeludo antes de desaparecer na escuridão da morada. Passeei o olhar pela vizinhança; pareceu-me acolhedora. A boa iluminação de alguns jardins mostrava-os bem simpáticos; bairro bastante aprazível. Sete ou oito minutos depois, calculo, ele reapareceu, com os cabelos molhados. De chinelos, conduziu-me para os fundos da casa. - Terá que permanecer, pelo menos temporariamente, escondido. Ninguém deve saber que está aqui. Concordei com movimentos ambíguos de cabeça. Preferi deixar os esclarecimentos para quando estivéssemos melhor abrigados; o frio da madrugada endurecia-me os dedos. Meu salvador guiou-me a um denso porão, bastante sombrio, apesar revelar ser assiduamente visitado. Percebendo minha aflição quanto ao frio, atirou-me um velho, mas limpo, cobertor marrom e verde; apontou-me um sofá: - Por hoje terá que pernoitar aí – disse-me, dedo em riste. - Mas por que não me acolhe lá em cima? - Ousei perguntar, acomodando-me. - Não vivo só – disse-me, seco, dissimulando precariamente seu encabulamento com relação ao que me dizia. - Divido a casa com uma pessoa que não deve saber que eu o abriguei. - Por quê? - Não creio que já esteja em condições de saber – disse-me, sério. - Desculpe-me – disse eu, notando que já abusava em demasia daquele que me oferecia seu teto. Após constrangedor silêncio, atacou-me: - Nome. - Como? - Perguntei, apesar de ter compreendido o que ele queria; a secura de seu inquirimento sufocou-me. - Nome. O seu nome – tornou a repetir, sem desgrudar os olhos de mim. - Fernando Munhoz – disse. - Mas todos me conhecem somente por Munhoz. - Certo. De agora em diante será Gago – me impôs. - Gago? Por que Gago? - voltei a questioná-lo, incrédulo. - Eu sou Maia – disse, ignorando-me. - Não faça muito barulho. Em uma hora estarei de volta. Apagou as luzes e subiu as escadas em direção ao interior civilizado da casa. Na escuridão novamente, minhas pupilas custaram a acostumar-se com a negritude. Quando o fizeram, vislumbrei uma espécie de escritório romântico: peças de roupas jogadas a esmo, algumas garrafas verdes vazias, uma guitarra vermelha e branca, uma judiada mesa suportando uma máquina elétrica, e livros, muitos livros, alguns postados ordenadamente, outros deixados ao deus-dará. Não dei muito mais corda à minha bisbilhotice; acalmei-me e descansei: dormi. Se Maia cumpriu com sua palavra quando dissera que voltaria em um hora, não pude testar sua pontualidade. Despertou-me com grosseiros safanões, semelhantes aos que recebera do cobrador mal humorado. Abri meus olhos inchados, agredidos pela opressora claridade de uma incandescente sessenta watts que balançava vertiginosamente do teto; as sombras dançavam. Vi-o propor-me um insólito café da manhã (se é que já amanhecera): maçãs e vinho. Maia também estivera dormindo: tinha as roupas e a cara amassadas. Deixou-se esparramar no chão, torto: uma perna inteiramente estirada e a outra flexionada, com o joelho servindo de apoio ao cotovelo direito. Mostrava-se agora menos distante e seco do que a noite passada. Num gesto, Maia apagou a lâmpada. - Temos que economizar. Concordei, sem palavras. Através de algumas frestas da janela vi tênues raios de sol furarem o quarto, que voltou a mergulhar na penumbra. - Que horas são? - Perguntei-lhe. - Não sei ao certo – disse-me, destampando a garrafa de vinho, com um estampido surdo. - Mas na certa já se passam das oito. Estes fachos de sol que vê invadirem o quarto só aparecem depois das oito; com esta intensidade, só depois das oito. Arremessou-me uma vistosa maçã no peito e serviu-me o vinho num copo americano. Alimentamo-nos por dez ou quinze minutos sem proferir palavra; o silêncio era apenas violado por ruídos oriundos das molhadas mordidas nas maçãs e de nossas gargantas, que deglutiam sem pestanejar o vinho barato. Maia, lavando os lábios do último gole com as costas da mão, disse-me: - Agora, reabastecido, conte-me sua história, em detalhes. Narrei-lhe toda minha trajetória, desde que eu fora enclausurado, até aquele momento, naquele quarto. Ouviu-me com atenção, e, por fim, declarou: - Uma história injusta, infelizmente corriqueira. Dito isso, encarou-me. Encarei-o de volta, à espera de seu relato, afinal, era sua vez de falar. Nada. - E então? - Sugeri. - E então o quê? - Devolveu-me, sarcástico. - Não me conta sua trajetória? - Não, agora não temos tempo – disse-me, erguendo-se num pulo ágil, gatuno. Subiu de volta as escadas, por onde descera, e deixou-me a ver navios. Resignado, bebi o que havia restado na garrafa verde. Segundos após pousar graciosamente a garrafa na mesa, ao lado da máquina de escrever elétrica, ouvi passos brutos aproximarem-se da escada pela qual Maia me deixara. Após um estouro, quatro homens irromperem escada abaixo, em minha direção. Paralisei-me. Ouvi ao fundo a voz de Maia, entre risos: - Calma, pessoal, não destruam minha casa! Agarraram-me por todos os lados, tornando minhas chances de reação nulas. Abriram caminho aos pontapés, pela porta dos fundos, por onde eu Maia entramos na noite anterior. O sol, que já estorricava, cerrou-me os olhos à força. Arremessaram-me numa espécie de furgão (preto – é só o que me lembro dele). Por uma minúscula janela, vi Maia receber os comprimentos de um homem fardado de cinza. * * * ::Filipe Freitas é estudante e gosta de futebol. |
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