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Conto
Fábio Fernandes | Fábio Fernandes |
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A Conta, Por Favor (ou: Salvador Almoça no Antiquarius) Erro mais uma vez o bife. O arroz vai parar fora do prato, e rapidamente recolho os grãos com os talheres; o olho direito se move por instinto, para ver se ninguém reparou. O lado esquerdo é sempre o mais difícil, o tapa-olho não deixa. Mas tudo bem: a maioria não pode ver mesmo, e os que enxergam se preocupam em saborear os pratos. Comida boa não é fácil hoje em dia. Não que seja farta: a comida no prato de porcelana Companhia das Índias não ocupa mais que um terço de sua superfície. Um filé de frango, algumas colheradas de arroz e um purê de batata rosti. Tudo da melhor qualidade; tem que ser, pelo preço. Estendo a mão para o cálice de vinho: Chardonnay Valdadige 1999. Uma das últimas safras realmente boas. Mas quase o derrubo. O cotovelo resvala na garrafa, e ela subitamente oscila num balé perigoso sobre a borda da mesa. Nervoso, agarro-a como posso antes que caia. Maldita perspectiva. Fico pasmo como esses cegos não se preocupam com isso. Mesmo os sem braços. Os mais endinheirados sempre trazem um enfermeiro a tiracolo para servir a comida na boca. Pelo menos foi o que vi há um ano, da primeira vez em que vim. Este é o meu segundo jantar aqui. E provavelmente o último. É tudo muito caro hoje em dia. Por isso saboreio o quanto posso. Termino bem devagar a última garfada. Como um velho desdentado - mas felizmente a maior parte dos meus dentes ainda está no lugar - continuo mastigando o ar até bem depois de engolido o último bocado, para sentir bem o gosto salgado do bife. Agora, a sobremesa. O sabor do pudim de leite condensado me lembra as tardes de domingo na casa de minha mãe. As lágrimas escorrem pelo rosto, assim como a calda de açúcar queimado pela barba, e eu deixo. Estes momentos não serão esquecidos. Pena que o pudim é pequeno. Por menores que sejam as colheradas, ele sempre acaba. Por um momento, me vem à cabeça o absurdo paradoxo de Zenon de Eléia. Mas eu não sou Aquiles, e o leite usado para fazer este pudim não vem sequer de uma vaca - há quantos anos elas se foram, meu Deus, há quantos anos! - , quanto mais de uma tartaruga. Limpo discretamente a barba com o guardanapo de linho branquíssimo e esvazio a mente de pensamentos. É chegada a hora do cafezinho.O garçom traz a bandeja de prata com a xícara fumegante. O aroma pungente invade as cercanias da minha mesa e é bem-vindo. Embevecido, sentindo-me em nuvens, concluo: este é um jantar metafísico. Transcende qualquer compreensão e não deve ser analisado. Apenas vivido. O líqüido preto queima a língua, mas não posso esperar que esfrie. Esperei tanto por este momento. Bebo. Por fim, a conta. O maître chega silencioso, de forma quase imperceptível, enquanto uma garçonete retira diligentemente os pratos. Ele não diz nada, apenas me aguarda. Retiro do bolso interno da túnica o cartão do banco de órgãos. Assino a nota e ele transfere para o computador do pulso o número do cartão. Mas o olho direito só será retirado daqui a uma semana. Dou uma gorjeta ao rapaz que me abre a porta. Ainda há sol na rua, sempre há nestes dias: muito sol e pouca gente. Puxo o capuz sobre a cabeça e ponho os óculos escuros. Começo a descer a rua apressado, com medo de uma indigestão que estrague tudo. Quando havia camada de ozônio, esse problema era bem menor. Procuro gravar atentamente na lembrança as imagens que passam pelo olho que ainda me resta. Não que haja muito para se ver hoje em dia. Para Victor Giudice Fábio Fernandes, 34, é jornalista e tradutor. Escreveu a coletânea de contos "Interface com o Vampiro" da editora Writers. Traduziu livros de Kurt Vonnegut e Gore Vidal, "Jorge Luis Borges: o Homem no Espelho do Livro", de James Woodall, entre outros.. Teve duas de suas peças de teatro encenadas no Rio de Janeiro: "Vestidos Brancos", com direção de Luiz Armando Queiroz, e o monólogo "Com Açúcar, Sem Afeto". Publicou contos em diversas revistas reais e virtuais. E-mail para contato: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email |
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