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É jornalista e tradutor. Escreveu a coletânea de
contos "Interface com o Vampiro" da editora Writers. Traduziu
livros de Kurt Vonnegut e Gore Vidal, "Jorge Luis Borges: o
Homem no Espelho do Livro", de James Woodall, entre outros..
Teve duas de suas peças de teatro encenadas no Rio de Janeiro:
"Vestidos Brancos", com direção de Luiz
Armando Queiroz, e o monólogo "Com Açúcar,
Sem Afeto". Publicou contos em diversas revistas reais e virtuais.
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A Conta, Por Favor
(ou: Salvador Almoça no Antiquarius)
Erro mais uma vez o bife. O arroz
vai parar fora do prato, e rapidamente recolho os grãos com
os talheres; o olho direito se move por instinto, para ver se ninguém
reparou. O lado esquerdo é sempre o mais difícil,
o tapa-olho não deixa. Mas tudo bem: a maioria não
pode ver mesmo, e os que enxergam se preocupam em saborear os pratos.
Comida boa não é fácil hoje em dia.
Não que seja farta: a comida
no prato de porcelana Companhia das Índias não ocupa
mais que um terço de sua superfície. Um filé
de frango, algumas colheradas de arroz e um purê de batata
rosti. Tudo da melhor qualidade; tem que ser, pelo preço.
Estendo a mão para o cálice de vinho: Chardonnay Valdadige
1999. Uma das últimas safras realmente boas. Mas quase o
derrubo. O cotovelo resvala na garrafa, e ela subitamente oscila
num balé perigoso sobre a borda da mesa. Nervoso, agarro-a
como posso antes que caia. Maldita perspectiva.
Fico pasmo como esses cegos não
se preocupam com isso. Mesmo os sem braços. Os mais endinheirados
sempre trazem um enfermeiro a tiracolo para servir a comida na boca.
Pelo menos foi o que vi há um ano, da primeira vez em que
vim. Este é o meu segundo jantar aqui. E provavelmente o
último. É tudo muito caro hoje em dia. Por isso saboreio
o quanto posso.
Termino bem devagar a última
garfada. Como um velho desdentado - mas felizmente a maior parte
dos meus dentes ainda está no lugar - continuo mastigando
o ar até bem depois de engolido o último bocado, para
sentir bem o gosto salgado do bife. Agora, a sobremesa.
O sabor do pudim de leite condensado
me lembra as tardes de domingo na casa de minha mãe. As lágrimas
escorrem pelo rosto, assim como a calda de açúcar
queimado pela barba, e eu deixo. Estes momentos não serão
esquecidos. Pena que o pudim é pequeno. Por menores que sejam
as colheradas, ele sempre acaba. Por um momento, me vem à
cabeça o absurdo paradoxo de Zenon de Eléia. Mas eu
não sou Aquiles, e o leite usado para fazer este pudim não
vem sequer de uma vaca - há quantos anos elas se foram, meu
Deus, há quantos anos! - , quanto mais de uma tartaruga.
Limpo discretamente a barba com
o guardanapo de linho branquíssimo e esvazio a mente de pensamentos.
É chegada a hora do cafezinho.O garçom traz a bandeja
de prata com a xícara fumegante. O aroma pungente invade
as cercanias da minha mesa e é bem-vindo. Embevecido, sentindo-me
em nuvens, concluo: este é um jantar metafísico. Transcende
qualquer compreensão e não deve ser analisado. Apenas
vivido.
O líqüido preto queima
a língua, mas não posso esperar que esfrie. Esperei
tanto por este momento. Bebo.
Por fim, a conta.
O maître chega silencioso,
de forma quase imperceptível, enquanto uma garçonete
retira diligentemente os pratos. Ele não diz nada, apenas
me aguarda. Retiro do bolso interno da túnica o cartão
do banco de órgãos. Assino a nota e ele transfere
para o computador do pulso o número do cartão. Mas
o olho direito só será retirado daqui a uma semana.
Dou uma gorjeta ao rapaz que me
abre a porta. Ainda há sol na rua, sempre há nestes
dias: muito sol e pouca gente. Puxo o capuz sobre a cabeça
e ponho os óculos escuros. Começo a descer a rua apressado,
com medo de uma indigestão que estrague tudo. Quando havia
camada de ozônio, esse problema era bem menor.
Procuro gravar atentamente na lembrança
as imagens que passam pelo olho que ainda me resta. Não que
haja muito para se ver hoje em dia.
Para Victor Giudice
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