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Emerson Ricardo | Emerson Ricardo |
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A negação de Joana Basta de me falar com esta voz de trovão! Não estou disposta a escutá-lo mais, tua prosa me cansa, tenho de dizer-te. Se permaneço aqui parada no meio deste campo, de rosto voltado pra cima e com as vistas em teu céu avermelhado é para botar um fim a nossas conversas. Vós não me inspirais nem mais confiança, uma hora diz ser São Miguel Arcanjo para um pouco depois afirmar que é Santa Catarina quem está a falar. Mudas a identidade como mudam as rotas dos ventos. Que troveje á vontade eu é que não te quero escutá-lo. Por causa de vós me apontam na vila- "Lá vai Joana a louca, a bruxa" - vê o que nossos colóquios me renderam! Quando procurei o Cura e lhe falei que andava a ouvir vozes, ele me sentenciou a desfiar rosários infindáveis, rezar, rezar, aconselhou-me a nunca responder a essas vozes sem corpo para não incentiva-las. Homem sábio ele. Ainda me acrescentou em sua sapiência – "Não dê margem, pode ser o diabo que vos fala, menina". Sim, que creia, mas o Cura pode estar certo em alertar-me que podes ser Satanás ou outro qualquer de seus lacaios infernais. E agora vens com este disparate! Mandas com teu modo prepotente que eu procure o Rei de França (o humilhado rei Borges, como o batizou o povo, escarnecendo de seus reduzidos domínios) e peça a sua majestade que me coloque à frente de seus homens. Vai Joana, matar ingleses, dizes tu e eu pergunto-lhe se queres que eu seja lançada, agora de forma irremediável, ao escárnio público. Já não te basta que apenas os habitantes da vila se riam de mim, terei que me tornar chacota de toda a corte também? Achas que o Rei irá por a disposição de uma rapariga, uma camponesa como eu, que nunca pegou em armas nem nunca se bateu em peleja alguma, um exército? Que mesmo humilhado pelos inimigos, abra o castelo para receber Joana-louca, maltrapilha e descalça... tu não és Deus mesmo, bem vejo agora, és um bufão. Crês que o Rei Carlos seja tão tolo quanto vós? Se eu o obedecesse e fosse ter com o rei como me pedes, dizes tu que eu ganharia as glórias celestes, serei a santa, a heroína. Pois sei de cor como tratas seus mártires e heróis, tuas virgens e teus beatos, ferro quente neles, cumula-os de humilhação e suplício antes de lhes reservar um nicho sagrado nos altares de tua igreja. Safa, estou fora! E não julgueis vós que sou uma celerada como diz o povo a ponto de me pôr à frente das tropas, levantando um estandarte e chamando os soldados à batalha. Deixar esta vila , este chão em que engatinhei catando porcarias e levando á boca, para ir guerrear é coisa que não me atrai. Gosto de viver cá, gosto de Domrémy e de suas raparigas. Suponho que algumas delas também gostem de mim, pelo modo como me olham e se abrem em sorrisos ruborizados ou provocantes, conforme o temperamento de cada uma, quando eu as cumprimento. Gosto de atormenta-las enquanto realizam seus afazeres e ver como tentam dissimular seu contentamento por eu estorva-las na lida e ralharem comigo gritando que as deixe em paz, mas logo me chamando de volta a qualquer pretexto se eu as atendo e me vou. Nicole diz que nasci para homem. Eu concordo. Meu talhe é mais para o esguio, reto, com certa parecença com o físico dos rapazolas. Diferente das carnes redondas das outras raparigas de minha idade. Certa vez Manon a rameira levou-me até sua casa e fez com que eu vestisse uns trajes de mancebo que tinha por lá, talvez de algum amante que não voltou. Vesti-me como queria ela, devo ter ficado bem pois ela fazia umas caras de aprovação, sorria matreira com o canto da boca. Fez com que eu me deitasse assim disfarçada com ela, sob as lãs do seu leito. Dizia ela que queria fazer uma brincadeira e nesta brincadeira me tomava a boca e nos intervalos de seus beijos sussurrava "Ai menino, menino...", seus olhos semicerrados com suas pestanas negras juntadas. Nos primeiros dias da primavera, quando os campos espalham-se em cores, Justine deitou-se na verde relva e levantou as saias até o ventre para que eu pudesse vê-la. Pousei a cabeça sobre uma coxa sua, descansando minha nuca na branca carne e fiquei nem me lembro por quanto tempo assim. Apenas sentia a brisa morna nos acalentar a ambas e balançar leve a haste das flores, mirando as nuvens se formarem em bichos estranhos e desmancharem-se enquanto beijava-lhe a buceta distraidamente. A buceta que ela a mim oferecia. Tomada de um fogo súbito ela me puxava pelos cabelos calcando meu rosto em seu talho. Gemia, chorava enquanto me lavava o queixo com sua baba. Travava as coxas e eu pensava nesses momentos que era sua intenção asfixiar-me, matar-me por sufocação. Mas depois afrouxava este cabresto que prendia minha cabeça e ficava mole, estendida na terra a chamar o fôlego. Não gostava que lhe bulissem nesses instantes, entrava num recolhimento de um mundo secreto. Outras tantas demonstravam ciúme se me pilhassem a conversar demasiadamente com alguma nova amiga, viravam-me a cara, ou tomavam logo explicações, que era? Não me agradava mais conversar com elas? Que vida pode ser melhor que essa, podes me dizer? Gostaria de ter nascido macho, mas não reclamo da condição de mulher, posto que faço as mesmas coisas que os homens mas tenho a fragilidade suposta do meu sexo a meu favor. A vida é dura para os homens, pois sim! Pare de esbravejar e de trincar o céu com teus raios ameaçadores, não estou a blasfemar contra vós, nem tenho medo de vossas ameaças. Se tua vontade pede, manda um desses teus coriscos que rabiscam o firmamento e aniquilar-me. Melhor assim, agora que te acalmaste podeis seguir ouvindo minhas argumentações. Não te esqueça que sou dotada de vidência e por vezes alcanço o futuro com meus olhos fechados e já vi o destino que me espera caso siga tuas orientações. Nas minhas visões enxerguei, a praça do mercado em Rouen, a multidão em volta gritando eufórica com aquela alegria cruel que é típica das massas e das crianças. Eu ao meio, o centro de tudo. O espetáculo que esperam sou eu. Ardo, me consumo nas chamas que me circundam, e enquanto queimo adivinho no rosto de alguns homens que estão excitados, de membro inchado feito salame dentro das calças achando sensual uma rapariga de pouca idade queimar. Adivinho também pelos rostos, que algumas senhoras e meninas, impressionadas com meu jeito de mancebo guardaram minhas feições, e me levaram consigo em seus pensamentos, e estarei em seus sonhos por algum tempo. Alguns choram , outros rezam, mas a grande maioria exulta quando o fogo se levanta e me engole por inteiro, de vez. Depois de minha morte as estórias começaram a correr. Dirão que enquanto eu era queimada cantava louvores a Satã, prova irrefutável de que eu era bruxa, ou, que lebres saíram dos arbustos e pularam na fogueira a fim de me acompanhar em meu suplício, coisa suspeita do mesmo modo. Prefiro ficar em meu pedaço de terra. Sei que conseguiria acabar com a guerra e livrar a França, mais no meu entender a minha guerra pessoal não é menos bela. Pergunte as raparigas, viúvas e matronas de minha terra o bem que me querem e que lhes faço. Devo eu abandonar as mulheres campesinas para levantar um estandarte na frente de batalha e incitar guerreiros?Não creio. Definitivamente não serei mais uma de suas virgens/mártires. Se lhe desagrada minha recusa, faz despencar o céu na terra, pouco me dói. E para vós meu não final, vou-me, pode cessar teus trovões. (Fim) :: Emerson Ricardo da Silva ( Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email ). |
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