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Edson Amancio | Edson Amancio |
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RETRATO DE PAREDE Numa dessas noites quentes, no início do verão, ao abrir uma gaveta, deparei com uma velha fotografia. Um pouco desbotada. No entanto, as figuras permaneciam nítidas: a negra Dina com uma trouxa de roupa na cabeça e um moleque, de uns 13 anos, agarrado na mão dela, olhando para o alto como se temesse o equilíbrio precário daquela arrumação. Foi como se uma janela do passado se abrisse de repente, lançando-me de chofre entre recordações que distam de muitos anos da época em que essas anotações foram feitas. As lembranças vieram impregnadas de cheiro de café torrado num fogão a lenha, latidos de cães correndo e desaparecendo ao longe no capinzal. A custo me levanto, procurando um lugar para guardar aquela relíquia. Pego um livro na estante para colocá-la como marcador de páginas. Era uma antologia do Drummond, e a página que abro em seguida fala de uma Itabira que era "apenas um retrato na parede". Não sei explicar por que - há muitos momentos desses para os quais nenhuma explicação é inteiramente satisfatória -, mas encontrar aquela fotografia e guardá-la junto daquele poema me fez mergulhar ainda mais nesta espécie de sortilégio que constitui o mar de lembranças relacionadas com a nossa infância. Me vi então, numa viagem recente, voltando a essas origens, percorp[prendo os lugares da época em que aquela fotografia fora tirada. O carro resfolegando na mesma estrada de terra esburacada, cheia de costelas-de-vaca, que eu percorrera muitos anos atrás. Faltava o antigo chapadão com a terra gretada, as lobeiras espinhosas e a vegetação rasteira. No lugar havia um reflorestamento. Cruzo esta imensidão de eucaliptos, ultrapasso os intermináveis quilômetros de monotonia e chego ao alto do arraial. Lá estão as mesmas casas de paredes desbotadas, agora mais do que antes, mas perfeitamente reconhecíveis; os telhados sem telha; os peões, filhos e netos daqueles peões que eu conhecera no passado, fazendo nada, na porta da venda, com seus cigarros de palha pendurados nos lábios, os chapéus ocultando as cabeças e as rudes feições. Tudo igual como era antes. O carro pára com a roda atolada no antigo lamaçal, defronte à varanda. A porta se abre e surge o vulto de uma mulher de cabelos brancos e o rosto coberto de rugas. Abro o desconjuntado portão, atravesso o pequeno jardim, olho as armações de madeira já quase apodrecidas que formam a pequena cerca em volta da casa, atravesso o espesso batente da porta pintado de azul, e entro na sala. Um odor recendendo a mofo me invade os sentidos. Sinto cheiro de sacaria, misturado com madeira apodrecida, as lembranças se materializando no meu pensamento. O soalho range sob meus pés, quando caminho até uma janela. Abro-a de par em par contemplando o horizonte silencioso. Ao longe vejo a silhueta do rio coleando nas curvas debaixo duma fileira de nuvens, uma ou outra cabeça de gado se levantando do capim numa espécie de aceno. Procuro o pé de jambo e, no seu lugar, vejo um pequeno jegue pastando indiferente. Dou uma rápida entrada em cada quarto, anunciando minha chegada a fantasmas. Vou à casinha de arreios, à copa e à cozinha. Lá estão os pratos esmaltados com quitandas sobre a mesa: biscoitos de polvilho, pão de queijo, broas de fubá , um vidro com doce de laranja-com-casca, outro com doce de leite, ainda outro com doce de mamão ralado, um queijo fresco sendo fatiado. Pego uma lasca de pão de queijo e saio para o quintal. Um bando de gansos, perus, galinhas d'angola, garnisés e pombos esvoaçam em torno de mim e das migalhas que caem no chão. Encostado na porta da tulha, vejo o imenso tacho de cobre reluzente onde eu raspava doce de leite nas beiradas. Deixo-me ficar ali, entretido nessa espécie de sonambulismo. A noite se aproxima, e no meio do bate-papo ameno que se estabelece em volta do fogão, entre os muitos visitantes que vêm de longe só para conversar, corto um pedaço do queijo, e vou assá-lo na chapa do fogão. Veludo, agora um respeitável cãozarão, mole e preguiçoso, mal se agüentando nas pernas, deita-se debaixo da mesa, de onde logo sai, obedecendo a um protesto baixo porém enérgico da dona da casa. Depois do banho de chuveiro, na água morna aquecida pela serpentina do fogão, me deito, com a cabeça apoiada num travesseiro de macela, sentindo o aroma adocicado da erva, ouvindo a orquestra de sapos se organizando no quintal. Quantos pensamentos nos vêm à cabeça numa hora dessas! Dina já não existe mais. Fora picada por uma cobra no último Natal e estava enterrada no cemitério da vila, perto da capela. O Bananal sobrevivia, e continuaria existindo para sempre. O importante, pensei, era não deixá-lo ficar triste como a Itabira do Drummond, que se transformara apenas em um retrato na parede. Edson Amancio, 51, é médico neurocirurgião e escritor, pós-graduado em neurocirurgia pela Escola Paulista de Medicina. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email http://www.coastalway.com.br/amancio/ Autor dos seguintes livros: - Em Pleno Delito, contos, 1976 - Cruz das Almas, romance, 1983 - Pergunte ao Mineiro, crônicas, 1986, romance, APM, 1995 - Personagens Diabólicos na obra de Dostoiévski, 1998 - Memórias de um quase suicida, novela, 1999. |
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